Cidades

Crianças e Adolescentes

Salvador não liga
para o direito de brincar.
Isso não é brincadeira!


Como é fundamental para o desenvolvimento da criança, brincar é um direito expresso desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e a Declaração dos Direitos da Criança de 1959, como “ampla oportunidade de brincar e se divertir”. Quarenta anos depois o Estatuto da Criança e do Adolescente em seu artigo 16, estabeleceu o direito a “brincar, praticar esportes e divertir-se”. Salvador, uma cidade ocupada em resolver os problemas dos adultos, não respeita o direito fundamental das crianças de brincar, brincar e brincar.

Assim como  suga o peito, se agarra à mamadeira, mete a mão no prato, assim, instintivamente também, a criança brinca, porque precisa brincar para crescer. Precisa ter um tempo só seu, para fantasiar, imaginar, criar seu mundo interior, os próprios jogos, as próprias brincadeiras.

Tentam brincar o maior tempo possível, o tempo todo, se puderem, tenham um quarto cheio de brinquedos ou apenas paus, pedras, folhas, tampinha de garrafa, caixa de margarina. O brincar é ao mesmo tempo íntimo e coletivo. A  criança busca o grupo, que potencializa a brincadeira, o grupo desafia, compete, equaliza. Ou pode brincar sozinha, horas a fio, em qualquer espaço e até em condições adversas.

Shoppings: para quem pode pagar, não falta espaço



Poucos parques para pobres ou ricos

Salvador tem poucos parques à disposição de suas crianças, com destaque para o Parque da Cidade, o Parque do Costa Verde e Parque de Pituaçu. Praças adequadas à frequência de crianças são raras. Segundo Ana Marcilio, da ONG Avante, Educação e Mobilização Social de Salvador, “a cidade está pouco qualificada para a primeira infância e infância de maneira geral. Tanto nas zonas onde há concentração de riqueza, quanto nas de concentração de pobreza”.

Ana Marcilio: equipamentos públicos são uniformes

Mesmo os condomínios, continua Ana Marcilio, não dão conta da grandeza da infância. As crianças de todas as classes sociais precisam de mais espaços públicos de convivência, precisam de maior vivência na natureza e de mais tempo para o brincar. Não só há pouco equipamento público como eles são uniformes, padronizados, dialogam pouco com o ambiente onde estão e as vezes não oferecem a segurança necessária, complementa.

Nem apartamentos, nem barracos têm quintais, por isso todas as crianças, de todas as classes sociais, deveriam ter garantido seu direito a espaços públicos, equipados ou não, mas seguros e limpos, para bebes tomarem banho de sol, crianças andarem de bicicleta, ou simplesmente correr, com árvores, grama, passarinho, se possível.

Só para aquelas crianças que têm acesso a condomínios, boas escolas e shoppings, não faltam espaços para brincar. Na maioria dos shoppings de Salvador, curtir esses espaços, alguns com cuidadoras, custa 40 reais por hora, em média.


Brincar ajuda a aprender

A idéia de que estudar e aprender são incompatíveis  com brincar vem sendo combatida por  especialistas, que consideram saudável introduzir a brincadeira no processo educativo. Brincando a  criança  aprende a dividir, emprestar, escutar, votar, escolher, criar junto, comparar ideias, trocar experiências.

Enquanto estudos no mundo inteiro comprovam a importância do brincar, é fácil perceber que nas escolas, nos abrigos, programas sociais e nas famílias, as prioridades são outras, alimentar, cuidar, proteger. O brincar fica reduzido a uma concessão, até  um prêmio e, muitas vezes,  é considerado culpado por mau comportamento e fraco desempenho escolar.

Na classe média, o horário integral nas creches e pré-escolas, as diversas atividades e cursos complementares à escola  desde muito cedo, além de ter por objetivo dotar a criança de conhecimento e habilidades, pretende não lhe deixar tempo livre para bagunçar, dar trabalho, tempo livre para brincar.

Fora dessa realidade, as crianças pobres comem menos, estudam menos, mas brincam mais.


Especialistas falam sério

Para Daniel Becker, pediatra, diretor do Centro de Promoção da Saúde (Cepads) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, “na infância, a prioridade deve ser o livre brincar, atividade que não pode ser repetida em outra etapa da vida e que é capaz de estimular uma série de competências humanas que nenhuma sala de aula poderá ensinar”.   

Já a Dra. Tânia Ramos Fortuna, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, especialista no assunto, reconhece o brincar como um direito e acha que “é preciso transformar a promoção do direito à brincadeira em uma luta política. Ou em política pública, tanto na formação de especialistas e apoio à pesquisa quanto disponibilizando espaços e equipamentos coletivos”.


Brinquedo só é brinquedo se alguém brinca com ele

Tânia Ramos Fortuna: Brincar com o Outro

Brinquedo que serve para olhar, assistir ou só observar, não são brinquedos, afirma Dra. Tânia Fortuna, referência na especialidade e autora, entre outros trabalhos científicos, do livro Brincar com o Outro, caminho para a saúde e bem-estar.

Para muitos pais – diz a especialista – dar brinquedos é uma forma de amar, de compensar ausência, de demonstrar status social, e, sobretudo, de voltar à própria infância, à antiga sensação de ganhar um brinquedo novo. É a esse sentimento que a Dra. Tania chama de “inveja de brincar”. E é assim, que muitos pais trocam a interação, o lugar de parceiro de brincadeira, com o de doador de brinquedos.

Brinquedo só é brinquedo quando alguém brinca com ele, Assim, uma lata pode virar brinquedo e um brinquedo se transformar em mero objeto decorativo. “Ter não é brincar. O ter significa consumo  e posse” afirma dra. Tania furtado. O ter brinquedos resulta, em grande parte, da eficiência da propaganda voltada para  crianças, que muitos tentam inibir, sem sucesso.

Resta aos estudiosos alertar pais e educadores sobre o papel do brinquedo na vida e no desenvolvimento da criança. Brinquedos demais inibem a criatividade; brinquedos não têm de educar, só entreter; o espaço onde ficam os brinquedos é mais importante que os próprios brinquedos, são alertas novos e novos ensinamentos, mas, segundo a Dra. Tânia Furtado, importante mesmo é que “o educador reconcilie-se com a criança que existe dentro dele, para melhor compreendê-la e, a partir daí, interagir em uma perspectiva criativa e produtiva com seus alunos”. Serve para pais e filhos também.


Indústria de brinquedos no Brasil não conhece crise.

Indústria de brinquedos: longe da crise

Segundo a Associação de Fabricantes de Brinquedos – Abrinq, a indústria de brinquedos no Brasil esperar fechar 2017 com um crescimento de 10%. Vem sendo assim, ininterruptamente desde 2009. “O brinquedo é desconectado desses problemas econômicos, vai direto ao coração”, diz o presidente da entidade, Synésio Batista da Costa.

A gigante Brinquedos Estrela, fundada em 1937, lançou sucessivos personagens, brinquedos e jogos, que marcaram gerações e segue protagonista. Dezenas de fabricantes de brinquedos de plástico registram o mesmo índice de crescimento. Consumidores levados pelo coração e fiéis às tradições mantém o mercado permanentemente aquecido.

“As famílias brasileiras não deixam de presentear as crianças. O Dia das Crianças é a data mais forte em vendas para o setor e logo depois vem o Natal”, revela Alexandre Torres, presidente da Expo Toys, terceira maior feira de brinquedos do mundo, realizada em agosto último em São Paulo.

A americana Mattei, que patenteou e fabrica a boneca Barbie, fenômeno de vendas a mais de 50 anos, foi recentemente autuada por exploração do trabalho na China. Em 2005, 120  Barbies eram vendidas por minuto no mundo. Mais de um bilhão já foram vendidas em 150 países.

 

 

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