Cultura

Afoxés, a estratégia do candomblé no carnaval

Uma bela história de fé e resistência que emprestou seus cantos e encantos à maior festa de rua

 


Um dos momentos mais espetaculares do Carnaval da Bahia é, sem dúvida, a chegada dos Filhos de Gandhy à praça Castro Alves, quando se forma o imenso e majestoso tapete branco da paz. O maior e mais famoso dos afoxés de Salvador, fundado em 1949, hoje reúne mais de 16 mil homens, que derramam água de cheiro no chão da praça e trocam colares azuis e brancos por beijos na boca com suas admiradoras mais animadas.

O Gandhy foi criado pelos estivadores do cais de Salvador, como os outros afoxés da época, pouco mais de um ano após o assassinato do líder pacifista indiano Mahatma Gandhi. Nasceu cultuando uma raiz asiática, diferente dos outros afoxés, nitidamente de raiz africana. Seus fundadores eram os antigos integrantes do bloco Comendo Coentro, quase todos do Sindicato dos Estivadores e ligados a terreiros de candomblé, por isso vigiados de perto pelo governo do general Eurico Gaspar Dutra. Vestiram branco, trocaram o “i” pelo “y” no nome de Gandhi e assim enganaram a censura, ganhando o direito de desfilar na rua Chile, a principal rua da cidade.

A elite da época, conservadora e preconceituosa, certamente não sabia que os primeiros “lençóis brancos” da fantasia do Gandhy teriam sido oferecidos pelas prostitutas do cais. Mas o Filhos de Gandhy é apenas um dos afoxés que embelezam e enriquecem o Carnaval da Bahia. Muitos outros não sobreviveram, muitos continuam existindo, todos construindo um bela história de fé e resistência do candomblé que resolveu emprestar seus cantos e encantos ao Carnaval.

O historiador Marco Aurélio Luz assim definiu: “Os afoxés contribuíram de modo contundente para o enriquecimento cultural dos festejos do carnaval no Brasil. O afoxé se caracteriza como um dos muitos desdobramentos culturais das comunidades-terreiros da religião tradicional africana no Brasil. Ele se constitui por uma linguagem contextual em forma de síntese recreativa que combina expressões de dança, música, dramatização, vestuário, instrumentos, emblemáticas etc., características da estética negra”. Confira no texto de Albenísio Fonseca.

 

Foto de Pierre Verger, anos 50. O começo do tapete branco na avenida.

 

Enquanto escolas de samba cariocas como a Portela e a Imperatriz Leopoldinense, ou a paulista Mocidade Alegre, usam a mítica “Cidade da Bahia”, a literatura de Jorge Amado e as festas populares como temas, 23 afoxés, em Salvador – com proposições lúdicas e sócio-educativas similares à das agremiações carnavalescas do Rio e São Paulo – enfrentam dificuldades para botar o bloco na rua.

A singularidade dessa manifestação cultural, originada na Bahia e consolidada no estado como patrimônio imaterial desde novembro de 2010, não surgiu como mero entretenimento. Trata-se de uma expressiva estratégia da comunidade negra para escapar à intolerância religiosa da época e professar (tanto quanto preservar) o candomblé.

Criminalizado pela igreja e pelo estado, o candomblé era proibido de ser praticado. Ou seja, como não podiam proceder em casa os rituais aos orixás, inquices e voduns, com seus toques, cantos, oferendas e dialetos, adotaram o momento do Entrudo (como então era denominado o Carnaval) e o território das ruas em festa para expressão da fé e, convenhamos, surpreendente exercício de cidadania.


Baixa dos Sapateiros, passarela da folia

Filhos do Congo, O resgate do mais antigo, Congos d’África .

O afoxé Embaixada da África foi o primeiro cortejo negro a desfilar pelas ruas da Bahia, em 1885, em pleno Império, com exuberância do regime imperial e seu sistema escravocrata, embora utilizando indumentárias importadas da África. No ano seguinte, surgiria o Pândegos da África, depois o Folia Africana. A Baixa dos Sapateiros se converteria em sua principal passarela. Mas eles já ocupavam o Taboão, Barroquinha e o Pelourinho.

Em suma, os afoxés que têm raízes nas congadas e folguedos das senzalas, surgem como táticas de resistência do candomblé, de defesa da raça negra, e se expandem após a Abolição. Saídos das favelas e quartos de criados, já em 1920 o Congos d’África se configuraria em “colossal candomblé a perambular pelas ruas”, na definição de Nina Rodrigues.

Legado de três gerações, o Congos d’África fora criado pelo velho Reginaldo, o Dodô, na área do Dique do Tororó – um território sagrado para o “povo de santo”. Ressurge sob nova denominação, Filhos do Congo, e resgatado por Ednaldo Santana, o Nadinho, em 1979, no que se poderia considerá-lo o mais antigo dos afoxés.


Comendo coentro sai de cena falido

Em 1948 os estivadores eram tidos como privilegiados, dadas as condições econômicas da época que lhes favorecia e ao fato de não terem patrões. O trabalho era fiscalizado pelo próprio Sindicato dos Estivadores, o que lhes conferia um certo status. Data desse ano a fundação do bloco “Comendo Coentro”, composto de um caminhão em que se instalaram vários instrumentos musicais, seguido dos estivadores, trajados finamente com o que de mais elegante existia: roupas de linho importado, chapéus “Panamá” e sapatos “Scamatchia”. A festa era regada a muita comida e bebida e os estivadores chegavam a alugar barracas para a farra carnavalesca.

Em 1949 com a política de arrocho salarial, em verdadeira economia de pós-guerra, o Governo Federal interveio nos sindicatos, inclusive no Sindicato dos Estivadores, o que fez decair a renda dos sindicalizados. O “Comendo Coentro” não pôde sair às ruas devido à crise financeira que se abateu sobre os estivadores e porque eles não queriam desfilar em condições inferiores às do ano anterior.


Que o futuro se cumpra

Surgiu, então, a idéia de levar um “cordão”, ou bloco de carnaval, idealizado por Durval Marques da Silva, o “Vavá Madeira”, com o apoio dos demais estivadores. Reconhecidos como ogans (personalidades que se destacam na sociedade iorubá) e decididos a buscar alternativa para brincar o Carnaval, consultaram um babalorixá. Conta-se que este teria jogado os búzios (Ifá) e a mensagem advinda foi a de que deveriam sempre fazer oferendas a Exu (mensageiro dos orixás) e que o agrupamento deveria se chamar Afoxé (“que o futuro se cumpra”).

Eles arrecadaram dinheiro e foram às compras, adquirindo lençóis para serem utilizados na confecção dos trajes, barris de mate e couro, com os quais construíram os tambores utilizados no acompanhamento do cortejo. Há uma outra versão a garantir que os lençóis teriam sido doados por prostitutas. Nascia o Filhos de Gandhy.

 

O ritual religioso no Pelourinho, antes da saída do tapete branco para a avenida.

 


Patrimônio desde 2010

Tombado como Patrimônio Imaterial da Bahia, em 2010 – e comemorado em 30 de novembro – o Desfile dos Afoxés enfrentou restrições para percorrer os circuitos do Carnaval de Salvador até aquele ano, quando ganhou espaço, ainda que sob horários excludentes, com a criação do programa “Ouro Negro”. Mas a passarela só seria “aberta” à noite e pela madrugada. Exceção apenas para os Filhos de Gandhy que podia atravessar a Castro Alves no domingo de Carnaval. O desfile do Gandhy ficou conhecido como “tapete branco”.

Mas a pisada do afoxé não acontece somente no Carnaval de Salvador. Há afoxés no interior da Bahia, em Feira de Santana, Alagoinhas e outras cidades e em outras capitais brasileiras: oito no Rio de Janeiro, quatro em São Paulo e no Ceará, cinco em Sergipe, dois no Rio Grande do Sul, três em Santa Catarina e 30 em Recife. Ao todo são 148 agremiações em todo o Brasil, a seguir o ritmo ijexá.

A formação original dos afoxés envolvia arautos e fanfarra que anunciavam a passagem do préstito com instrumentos como trombetas, trompetes e clarins; guarda branca, rei, rainha, babalotin, estandarte (geralmente bordado a fios de ouro), guarda de honra, charanga (músicos que tocavam atabaques, agogôs, xequerês e afoxês).

 

Adereços carnavalescos lembram indumentárias usadas no candomblé.

 

A diferença entre eles estão nas indumentárias (abadás), cores (vinculadas aos respectivos orixás), cantigas em iorubá, além dos instrumentos de percussão. O ritmo e a dança na rua reproduzem a dos terreiros, bem como a melodia entoada. As músicas, agora selecionadas em concorridos festivais, são puxadas pelo cantor do grupo e repetidas por todos, inclusive os instrumentistas.

Os componentes, normalmente vinculados aos terreiros de candomblé, têm consciência de grupo, valores e hábitos que os distinguem de qualquer outra entidade no Carnaval. Para quem não conhece o candomblé e seus cânticos, a sensação é de que seja apenas um bloco carnavalesco diferente, mas trata-se de uma expressão simbólica a reverenciar ancestralidades pelas ruas.

Segundo pesquisa e publicação do IPAC – Desfile de Afoxés – em 1902, os afoxés pediram licença à Prefeitura para desfilar, o que lhes fora negado gerando intenso debate na imprensa. Em 1906, foram publicadas medidas para regulamentar o Carnaval no jornal “A Bahia” e, entre estas, uma proibição à “exhibição de clubs de costumes africanos, candomblés”.

Mantenedores de verdadeiros pontos de cultura, os afoxés aliam integração comunitária à educação e possibilitam aulas de dança e música, elementos constitutivos da cultura negra, considerando, ainda, a íntima relação entre corpo e ritmo como fator estruturante para diversos níveis de sociabilidade. E, assim, desejar que os anunciadores do futuro nos toquem cada vez mais próximo.

 

Entre os afoxés de Salvador, vale destacar:
  • Filhos de Gandhy
  • Filhas de Gandhy
  • Afoxé Badauê
  • Filhas de Olorum
  • Filhos de Korin Efan
  • Korin Nagô
  • Pai Buruku
  • Filhos de Ogum de Ronda
  • Filhos do Congo (antigo “Congos D’África”)
  • Ilê Oya
  • Kambalagwanze
  • Luaê
  • Olorun Baba Mi
  • Tenda de Olorum
  • Afoxé de Alagoas
  • Afoxé Odô Iyá
  • Afoxé Laroyê Arriba
  • Afoxé Viver Só Assim – Filhos de Angola (de Santo Amaro)

 

 

Veja Também