Artes Visuais

AYRSON HERÁCLITO
Tradutor dos mitos e ritos afros, artista baiano encanta público alemão

Bori Oxum. Foto: Ayrson Heráclito.

Diretamente de Frankfurt, Alemanha, onde apresenta com sucesso trabalhos na mostra “Entre Terra e Mar”, no Museu Weltkulturen, o artista plástico baiano Ayrson Heráclito, fala um pouco das origens e andanças pelo mundo, do seu trabalho altamente referencial às heranças afrobrasileiras.

Em breve entrevista exclusiva para OutraBahia, antes de retornar ao Brasil, ele faz uma retrospectiva de suas instalações artísticas – fotografia e vídeo-performance – que já foram apresentadas em mostras nacionais e internacionais – bienais, salões, exposições individuais e festivais de arte.

E que mais uma vez seduz e encanta a Alemanha.


Vaneza Melo

 

O artista e sua arte enraizada presentes nos museus mundo afora.

 

Você tem presença na Alemanha há algum tempo. Por que os alemães têm curiosidade pelo universo do candomblé?

A minha arte, por ter essa dimensão antropológica, também atrai muito a curiosidade e o interesse. Muitos deles não conhecem o que é o candomblé, porque aqui não é uma religião muito divulgada, mesmo tendo, em cidades grandes, como Berlim, casas de candomblé com pais de santo, etc.

O interesse é muito grande pelas culturas da diáspora americana e por todas as culturas que foram, de certa forma, resultado de um fenômeno colonial. O meu trabalho, por trazer uma vertente religiosa que perpassa o ritual, atrai muito a eles porque a alma alemã é muito intensa, então você consegue compreender o porquê um dos maiores artistas alemães do século XX, Joseph Beuys, se declarava um xamã.

Essas outras dimensões e percepções do mundo também atraem muito o interesse da cultura germânica. Sem falar também que a tradição romântica na Alemanha, os grandes artistas e pensadores românticos, vai também definir uma intensidade emocional muito grande e ao mesmo tempo em que eles são super pragmáticos, são super organizados, super metódicos. Eles têm o interesse nessas superações.

 

A flor da pipoca, Obaluaê. Foto Ayrson Heráclito

 

Você considera o conjunto de sua obra como afrobrasileiro?

Sobre ser ou não ser um artista afrobrasileiro, é lógico que eu afirmo que eu sou com todo orgulho. Principalmente porque sou filho de um casamento interracial. Então, eu sou um mulato e honro muito a minha herança negra, como os mulatos do Brasil costumam honrar sua herança branca, né? Eu me orgulho muito eu não quero passar ou sofrer nenhum tipo de branqueamento.

Hoje eu penso que a minha arte tem dois grandes momentos. É perpassada por questões estéticas, tem uma perspectiva não ocidental. Então, tem uma perspectiva antropológica, o próprio conceito de arte como eu encaro é totalmente antropológico.

Um momento em que eu me torno um tradutor de mitos e da cultura afrobrasileira, todas as invenções, todas as criações, todos os ritos e todos mitos, e todas as mitologias que fizeram existir na Bahia especificamente pela presença africana. E em outro momento eu me vejo como um artista que promove uma espécie de purgações, de catarses, de exorcismos, quando eu enfrento as questões políticas envolvidas nesta história.

 


O bem estar não só do corpo, mas do espaço que você vive,
pode ser tratado com o poder e a energia das folhas
que são elementos vegetais da natureza


 

O sacudimento do outro lado do Atlântico. Maison des Esclaves, Ilha de Gorée, Senegal. Foto Ayrson Heráclito

 

O “Sacudimento” é justamente esse ritual de limpeza, usando as folhas, esse conhecimento ancestral que os africanos trazem para nós, o bem estar não só do corpo, mas do espaço que você vive pode ser tratado com o poder e a energia das folhas que são elementos vegetais da natureza.

Então, esse sacudimento, esse exorcismo que eu faço em dois sítios (Casa da Torre de Garcia D’Ávila, Bahia, Brasil, e Maison des Esclaves, Ilha de Gorée, Senegal), dois espaços associados à colonização e escravidão, tem como interesse afugentar esses espíritos nocivos que foram na verdade os espíritos, os fantasmas dos senhores de engenho, de senhores de escravo, ou dos mercadores de escravos, dos traficantes. São esses espíritos de mortos, esses fantasmas que me aterrorizam e que ao meu ver tem que ser retirados desses espaços, tem que ser banidos.

 

“Transmutação da Carne”, o criador em ação. Museu Fowler,
Los Angeles. Foto Fowler Museum.

 

Sua obra “Transmutação da Carne” é um marco na carreira?

Sem dúvida. Eu comecei a trabalhar com a carne no início dos anos 2000. Me aprofundei no tema quando eu tive acesso a um documento que descrevia os maus tratos que um dos Garcias D’Ávila, o Garcia D’Ávila Pereira de Aragão, fazia contra os seus cativos, seus escravos. A descrição deste documento era muito forte, intensa e mostrava o quanto o corpo, o corpo negro, o corpo do escravo, escravizado, passava por torturas e por diversas práticas extremamente sádicas. Isso me tocou bastante.

Então, a “Transmutação da Carne”, além de trazer essa fisicalidade para o corpo, a performance, ela também representa minha elaboração para eu pensar o corpo cultural. A carne representa, na verdade, essa metáfora de um corpo cultural, um corpo afro-brasileiro. É uma carne de charque, uma carne que não é uma carne pura, não é uma carne de primeira, é uma carne mestiça, uma carne muito resistente. A carne de charque é este corpo histórico, corpo cultural afro-brasileiro que suportou muitas torturas.

Como foi este ano pra você?

Trabalhei bastante. Estou trabalhando muito. Principalmente porque foi o ano de três grandes exposições muito importantes na minha vida. As três são internacionais. A primeira foi a convite da curadora geral da 57º Bienal de Veneza, Christine Macel, onde ocupo uma sala no Pavilhão dos Xamãs, uma das bienais mais antigas e famosas do mundo. Tem a mostra que eu realizei pela primeira vez nos Estados Unidos no Museu Fowler, da Universidade da Califórnia. E agora, esta exposição em Frankfurt, que também tem uma espécie de retrospectiva sobre a minha obra. São as três grandes exposições. Mas eu participei de 21 exposições, eu trabalhei muito.

Depois de Frankfurt, onde Ayrson Heráclito estará?

Depois de Frankfurt retorno ao Brasil, Rio de Janeiro, na Galeria Portas VilaSeca onde haverá a mostra “Luxe Deluxe”. Estou negociando mais exposições na Europa para 2018. Provavelmente, estarei entre Berlim, Stuttgart, na Alemanha, e Zurique, na Suiça.


Mente e corpo ligados ao cordão umbilical

 

Bori de Oxossi/Odê. Foto: Ayrson Heráclito

Criador de símbolos, formador de mentes, pensamento ágil, domínio sobre as questões raciais dentro do campo artístico, o artista plástico defende uma arte que traz um DNA renegado por uma colonização e uma visão ocidentalizada que ainda assombra as Américas: “Honro muito a minha herança negra”.

É com esta bagagem pessoal e intransferível que surgem obras como “A Transmutação da Carne”, performance emblemática do início dos anos 2000, apresentada no Instituto Cultural Brasil e Alemanha, em Salvador.

Realizou rituais performáticas envolvendo alimentos dos orixás no candomblé, como a obra “Divisor” que traz o dendê, reconhecido na religião matriz africana no Brasil, como o sêmen de Exu. Também tem a série Bori, cabeças adornadas com os alimentos dos orixás como Obaluaê (pipoca), Oxum (feijão branco e ovos), Oxossi (milho verde), entre outros. Ou ainda a videoperformance “O Sacudimento” (2015), que traz um ritual de apaziguação para dois ambientes: a Casa da Torre de Garcia D’Ávila, localizada em Mata de São João, Bahia, e Maison des Esclaves, na Ilha de Gorée, no Senegal.  Esta obra, um díptico, lhe valeu um convite para expor na 57ª Bienal de Veneza (2017), realizado diretamente pela curadora-geral do evento Christine Macel, também representante do Centre George Pompidou, em Paris.

 


Tudo começou no sertão baiano

 

O dendê abre caminhos, o corpo transmuta-se às raízes afrobrasileiras.
Foto Ayrson Heráclito.

Nascido em Macaúbas, interior da Bahia, Ayrson Heráclito veio para Salvador na década de 1980 para estudar licenciatura em Artes Visuais na Universidade Católica de Salvador, UCSal.

Em 1986, participa de um salão de arte. Destacou-se tanto que o crítico Fernando de Morais reconhece uma verve artística diferenciada ao constatar em sua obra “Jesus no Monte das Oliveiras” uma densidade social que despontava num cenário corriqueiro dessa Salvador: a miséria e o luxo convivendo no mesmo espaço. A pintura a óleo tratava do lixo que se acumulava nas portas dos restaurantes e dos pobres que procuravam comida.

Hoje, representado por duas galerias de arte no Brasil, a Blau Projects (São Paulo) e a Portas VilaSeca (Rio de Janeiro), doutor em Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pesquisador da diáspora africana no Brasil, Ayrson Heráclito vem trabalhando não só como artista visual, mas também como professor do Bacharelado de Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e curador de diversas mostras que resgatam o universo do povo baiano como um recorte antropológico. Um exemplo foi a curadoria realizada por ele na 2º Bienal da Bahia, em 2014.

Se o tempo não para, Heráclito também não.

 

 

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3 thoughts on “AYRSON HERÁCLITO
Tradutor dos mitos e ritos afros, artista baiano encanta público alemão”

  1. É de gránde relevância seu olhar investigativo como resultados processuais de suas heranças matrizes. Belo Legsdo abençoado!!

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