Carnaval

Estamos voltando ao carnaval pé no chão. O folião protagonista!

O povo da Bahia tem sido presa fácil do modelo pão e circo mas isto vai mudar

Waltinho: ” O carnaval é na sua essência a mais alta experiência de catarse coletiva e num país de dolorosas diferenças como o nosso, institucionalizar o já reinante apartheid do modelo atual, é um tiro na esperança de uma festa mais humana e pacífica que só acontecerá quando caírem as cordas”.

O povo da Bahia tem sido presa fácil do modelo pão e circo, este o resumo da conversa com Walter Pinheiro de Queiroz Junior, o Waltinho, advogado, publicitário e compositor, de biografia robusta, que na juventude mistura música e academia, medalhas, Harvard, liderança estudantil, festivais, shows. A Bahia no sangue, visível em toda sua obra, andou pelo Brasil, compondo, cantando e sendo cantado. Mas a publicidade, as novelas, os filmes de sucesso, não seguraram Waltinho fora de sua terra. E lá se vai quase meio século de carnaval, vivido em todas as suas dores e sabores. 


Dá pra definir o carnaval da Bahia?

O esplendor telúrico, terra farta, céu e mar, ajudou baianos-africanos a arrostar a estupidez colonial e a grande vontade de viver lhes permitiu superar a horrenda sequela da escravidão. Foi dançando, cantando e rezando que o povo da Bahia sobreviveu a uma elite branquela e burra e que fascinada pela beleza negra contribuiu para a nossa miscigenação e não há brancos e negros puros por aquí, só baianos, só mestiços com as graças de Oxalá. Entretanto, o ancestral vício hedônico tem-nos custado caro e sexo, cachaça e batucada promovem a alienação tão a gosto da política oficial. O povo da Bahia tem sido presa fácil do modelo pão e circo.

 O que significou a criação do circuito Barra-Ondina?

O corredor polonês em que se transforma o Circuito Barra-Ondina é uma prova do desprezo pela segurança dos cidadãos comuns que, a duras penas, ainda conseguem participar da festa. O bairro da Barra sitiado, músicas sem nenhuma poesia, a mediocridade imperando, vamos para mais um carnaval divorciado da poesia.

O que aconteceu com o carnaval da Bahia?

O carnaval é na sua essência a mais alta experiência de catarse coletiva e num país de dolorosas diferenças como o nosso, institucionalizar o já reinante apartheid do modelo atual, é um tiro na esperança de uma festa mais humana e pacífica que só acontecerá quando caírem as cordas, retirarem os camarotes e devolverem as ruas aos seus verdadeiros donos, os foliões anônimos, chamados, bandeirosamente, de “pipocas”.

A questão fundamental está no fato de que saímos de um modelo participativo e democrático para uma festa espremida por cordas e camarotes. O gigantismo dos trios de som predador, fantasias medíocres, músicas anódinas, o estímulo à baixa sensualidade que aliada ao álcool estimula a violência numa longa maratona momesca onde a poesia e a espontaneidade foram esquecidas.

Tem solução?

No Brasil inteiro está voltando o carnaval “pé no chão” com centenas de pequenos blocos e acho que essa é a tendência, o folião, outra vez, como protagonista da folia.

Quais foram os melhores carnavais? A folia é reflexo do momento, reflete o instante e as contradições do país?

Não devemos cair na armadilha falaciosa do melhor período carnavalesco: cada época com suas conquistas! Entretanto, não devemos perder de vista as conquistas admiráveis como a do bloco do Jacu que, abolindo as cordas segregacionistas, instaurou o verdadeiro carnaval – participação.

O Brasil é maior do que suas próprias contradições e ao mesmo tempo é um país sofrido, valha-me Deus. Não tem sociólogo nem psicanalista que resolva essa questão!

Quando surgiu a primeira corda. Quem foi o primeiro a cercar o bloco?

As cordas surgiram no carnaval de rua apenas para a proteger os músicos, sobretudo, os metais, e facilitar a aglutinação de charangas, blocos de sujo mas, jamais, com o intuito de segregar ou lucrar com a apropriação indébita do espaço público, atentando  contra o direito institucional de ir e vir. Durante quase duas décadas, sem cordas, o Jacu congregou na avenida milhares de foliões (cantando) .”Nunca teve corda/porque em coração/cabe todo mundo/pra cantar esse refrão/Tem ,tem, tem/tem jacu na rua lhe querendo bem.”

 

 

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