Carnaval

Duelo das baleias esquenta
carnaval nas tardes de Itapuã

Jubarte X Cor de Rosa: escolha a sua baleia e vá se esbaldar no Carnaval de Itapuã. Melhor ainda: vá nas duas.

Jubarte é mais uma das atrações do Carnapuã. Fotos de Dario Guimarães Neto.

O Carnaval de Itapuã – Carnapuã, como passou a ser desde os anos 90 – será ainda mais apimentado que o acarajé da Cira. Sem esquecermos das atrações musicais, dos blocos afros e escola de samba, falamos das baleias. Sim, no carnaval de Itapuã tem baleia na folia. E este ano, com a “guerra das baleias”, estabelecida entre os criadores da principal alegoria nas festas do bairro. A controvérsia gerada entre as baleias Jubarte, criação do arte-educador Ives Quaglia e a Cor de Rosa, herdada por Cristiano Loureiro, de seu pai, João Loureiro, um antigo morador e agitador cultural de Itapuã, tem como pano de fundo divergências políticas e ideológicas. Jubarte chega no sábado, 10, e navega na 4ª feira de Cinzas.

Baleia Cor de Rosa, mais nova porém com todo o seu charme.

O embate teve origem no ano passado quando a dotação de R$ 20 mil para a realização da Lavagem de Itapuã, organizada pela comunidade através da AMI-Associação dos Moradores de Itapuã, foi destinada a Loureiro, que herdou a Baleia Cor de Rosa e que apoia o prefeito ACM Neto.

A Associação, mais próxima do partido que faz oposição ao prefeito, move ação junto ao Ministério Público e pretende acionar a Justiça para obter o repasse do recurso junto à Saltur-Empresa de Turismo de Salvador, que já boicotou a verba em anos anteriores, conforme um dos dirigentes da AMI, Raimundo Bujão. Ainda segundo a direção da Associação dos Moradores de Itapuã, o coordenador grupo da Baleia Rosa, Cristiano Loureiro foi quem deflagrou a “guerra”, após ter sido rechaçado em reunião da AMI e ter partido para ataques ao grupo da Baleia Jubarte, nas redes sociais.


Ideia de Waly Salomão

A festa da emersão da baleia teve início em 1987, por inspirada sugestão do poeta Waly Salomão, então coordenador do Carnaval de Salvador. A Baleia Jubarte foi construída por Idalino, artista plástico radicado em Itaparica e contou com as participações de Ives Quaglia, Oscar Ramos. Num carro alegórico e acompanhada por outras alegorias, a Jubarte desfilou por todas as ruas do bairro e foi lançada ao mar na quarta-feira de cinzas. Naquele ano, a festa foi marcada por outra celeuma, envolvendo protestos da comunidade que defendia a indicação do carnavalesco Seo Menezes como coordenador, mas Waly optou pela indicação de Gessy Gesse, ex-mulher do poeta Vinícius de Morais.

Conforme Quaglia, a Baleia Cor de Rosa foi criada em 1988, era uma peça inflável montada com câmara de ar e confeccionada em São Paulo, quando o coordenador do festejo no bairro era João Loureiro. Segundo ele, “foi uma iniciativa importante e que potencializou o Carnapuã. Depois disso, a Baleia Cor de Rosa só retornaria em 2003, 2008 e no ano passado. O professor e artista diz nunca ter tido qualquer divergência com João Loureiro e assegura ter sido o único artista a homenageá-lo, com a peça “João é Massa!”após a sua morte.


Auge da festa: a baleia no mar.

Consciência ambiental

Com a mudança de prefeito não houve o desfile da Baleia em 89. Em 1990 alegoria voltou às ruas, graças ao empenho de entidades do bairro mobilizadas pela AMI e sob a coordenação de Raimundo Bujão e Antonio Nativo. Eles contam que, nesse ano, a alegoria foi construída pelo artista Basqueteira e por Seo Climério. “Desde 1991 quem faz a baleia Jubarte sou eu, diz Ives Quaglia. Em 1992, viabilizamos a alegoria com o envolvimento dos comerciantes e da Colônia de Pesca. Do mesmo modo, em 1993. De 1994 a 98, passamos a ter apoio do Colégio Lomanto Júnior”, conta o artista.

Quaglia complementa: até 1995 a baleia era lúdica, inspirada em animações e histórias em quadrinhos. Em julho daquele ano foi convidado a participar da Festa da Baleia de Nova Viçosa, no Extremo Sul do litoral baiano, para confeccionar uma réplica de baleia Jubarte, com 10 metros de comprimento. Foi quando tomou consciência da enorme importância dessa espécie que procria em águas da Bahia e está ameaçada de extinção. “Passamos a ter apoio do Instituto de Biologia da UFBA – continua Quaglia – e, em 1996, pleiteamos recursos públicos, junto à Prefeitura, que nunca foram suficientes para a organização do festejo. Até 98, a Jubarte era sempre restaurada e decorada de acordo com o tema maior do Carnaval de Salvador e ultrapassou os limites de Itapuã, conta.

A Baleia Jubarte já participou de seis edições da Mudança do Garcia; três Caminhadas Axé; do filme “Samba Riachão” (dirigido pelo cineasta Jorge Alfredo) e do Simpósio Internacional de Carnaval, Máscaras e Comunidades quando uma réplica ficou exposta no Pelourinho e era guardada na antiga Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus. Em 2016, participou da caminhada Raízes do Brasil, no Dique do Tororó e, ano passado, do Festival Caymmi, entre outros eventos.

O artista plástico disse não ver qualquer problema na existência das duas baleias no Carnapuã: “Poderiam ser 10, sem essa controvérsia de apropriação que foi estabelecida, mas é certo que, nesses 30 anos de presença a Jubarte passou a simbolizar a festa”. E provoca: “A Baleia Cor de Rosa só teve três ou quatro participações e, é preciso que se diga, que a festa existe hoje graças à minha atuação”.

Outra Bahia acrescenta: escolha a sua baleia e vá se esbaldar no Carnaval de Itapuã. Melhor ainda: vá nas duas!

 

 

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