Carnaval

Outros carnavais

No Largo do Santo Antonio, cena de um dia qualquer do carnaval na Cidade da Bahia. Fotos de Dimitri Ganzelevitch.



Dimitri Ganzelevitch
Cronista e fotógrafo

 

1973. Pela terceira vez vou a Salvador. Desta vez após um longo périplo pelas ilhas Galápagos e a descida do rio Amazonas a partir de Iquitos. Viajei sem companhia. O roteiro era por demais complexo e longo. Interminável, a viagem pela Varig desde Manaus até a Bahia. Reservei um quarto no Vila Romana, charmoso hotel do bairro residencial e algo adormecido da Barra. Chego na noite da sexta-feira, em tempo para o carnaval que só começará no fim de tarde do dia seguinte, sábado.

Não tenho muita lembrança dos detalhes destes dias, senão que, apesar de ser mais uma festa diurna, terminando pelas 22:00, voltava sempre de madrugada pelas ruas desertas. Dormia algumas horas, acordando para descer até a Praia do Farol a cuidar de meu bronze antes de almoçar, mal, no único restaurante da redondeza. Servia um macarrão bem pegajoso.

Com ou sem fantasia a cidade transpirava carnaval.


Era um carnaval bonachão, para as famílias. Desde a Rua Chile até a Casa de Itália, cada casa instalava bancos e cadeiras para ver os blocos passarem. Grupos de “crentes” – paletó surrado, gravata gordurosa, algo semelhante a uma Bíblia debaixo do braço, uma garrafa de cachaça do bolso – debochavam sem que ninguém achasse errado. Risada geral. O Edir Macedo ainda não mandava nos bolsos dos coitados.

Blocos de índios que muito me impressionavam pelo realismo das fantasias. Muitos e variados eram os disfarces, as máscaras, com predominância de pierrôs. Muitas bandas também. Multidão? Claro! Mas dentro do razoável. Nunca, nestes quatro dias, tive uma sensação de perigo, ninguém tentou me roubar.

Caetanave, homenagem de Orlando Tapajós ao mano Caetano que voltava do exílio.


1976. Já residindo em Salvador, começo a descobrir os mecanismos, as raízes da folia. Na Rua Direita de Santo Antônio, perto da Cruz do Pascoal, em uma casa que deve ser do fim do século XVII, se reúnem os Mercadores de Bagdá. Os vi desfilar pela última vez. No mesmo local, eu iria marcar os primeiros encontros da Associação Cultural Viva Salvador, por muito tempo ainda sem estrutura formal nem estatutos. Morando na Rua do Passo, assisto aos ensaios dos Corujas na Ladeira do Boqueirão. No domingo de Carnaval, vou de manhã cedo até o Largo do Pelourinho para ver passar, não só os Corujas, mas também os Internacionais, ambos vindo do bairro de Santo Antônio. Irão se misturar aos Filhos de Gandhy a caminho da Praça Castro Alves.

É a grande época da bem chamada Caetanave que parece flutuar acima da multidão. Na escadaria do Palácio dos Esportes, que faz contrapeso ao muito dinâmico edifício do jornal A Tarde, as barracas já são uma festa em si pela exuberância de suas cores. Lá se encontram quem já saiu do armário e simpatizantes. O desfile das drag queens é um dos grandes eventos do carnaval.

O Juvená, que não segue estas tradições coloridas, tem um espaço maior, naquilo que hoje é um estacionamento, na entrada da Rua Carlos Gomes. Ao longo da avenida, as janelas e sacadas são disputadas. Durante ainda muitos anos, as marquises estarão abarrotadas de foliões, inconscientes do perigo. Ruas e praças são decoradas com elegantes enfeites luminosos assinadas por conhecidos artistas, como o Juarez Paraíso. O carnaval ainda não foi abocanhado pela ditadura das cervejarias. Pouca ou nenhuma propaganda.

Como era inocente o Carnaval dos anos 70!


O Carnaval, a cidade e o meio ambiente

Almandrade

“O BRASILEIRO MÉDIO NÃO FALHA NUNCA EM INTERESSAR-SE PELO QUE LHE CHEIRE CARNAVAL OU A MÁGICA. TANTO ADORA OS CARNAVAIS DE TODA ESPÉCIE – OS ARTÍSTICOS E OS ACANALHADOS- QUANTO DESPREZA AQUELES ESFORÇOS INTELIGENTES E SÉRIOS QUE SE DESENVOLVAM SEM GUIZOS E SEM PASSES DE MÁGICA” (GILBERTO FREYRE)


Meio ambiente, cidadania e ética atravessam a cidade da festa.


Com as mudanças climáticas aceleradas há uma tendência de dificultar ainda mais a vida no planeta nas próximas décadas, por essa razão a perda da qualidade de vida tende a aumentar e conseqüentemente também a recessão da ética, da cidadania, da ordem, da educação e das responsabilidades individuais com o outro e o meio ambiente. Levar vantagem, não importa como, é uma meta. Na sociedade urbano-contemporânea contemporânea, a perda do domínio público é visível nas reivindicações ou reclamações que vêm à tona quando surgem intervenções que atingem o espaço particular.

Há muito a cidade deixou de ser o lugar da liberdade, do diálogo, do encontro, é o lugar dos prazeres imediatos e do consumo, da circulação da mercadoria. Chegou o verão, a Cidade do Salvador é do turismo e da festa. Estamos em mais um carnaval. A cidade, desprovida do sentido de comunidade, é o palco onde tudo se troca, tudo tem um valor de mercado, do entretenimento ao corpo. O evento já não é mais uma diversão, mas uma indústria de um espetáculo que invade a cidade. E para quem vive no circuito da folia, sem tranqüilidade, exilado em seu próprio espaço residencial, invadido pelo barulho da rua e o odor desagradável de urina e cerveja, não há alternativa.

O carnaval acabou se transformando numa festa autoritária para quem não tem o direito de optar por outro divertimento, por outro tipo de música. Cresceu demais, ficou maior que a cidade, que mal o suporta. Ainda não se fez uma avaliação do impacto dos trios elétricos na estrutura dos prédios, monumentos históricos e no entorno. Chegou o momento de se pensar numa cidade do carnaval para o desfile dos trio-elétricos e a infraestrutura necessária que a festa exige como o sambódromo, no Rio de Janeiro. A festa gera consumos exagerados de água, eletricidade, combustível, produz uma quantidade de lixo e custos de coleta.

O carnaval é um exemplo da privatização do espaço público e da nossa incapacidade de habitar o lugar público, nos acostumamos a pensar o público como uma reprodução do privado, até como forma de se sentir protegido. Com seus trios seletivos, é a extensão do domínio privado. A liberdade é o deslocamento para o público e a publicidade daquilo que se deseja realizar na intimidade e daquilo que não se tem coragem de realizar, nos outros dias do ano.

É preciso entender a cidade além da concepção de espaço físico.Habitar uma cidade tem como princípio básico o exercício da cidadania e o agir ético dentro de uma determinada sociedade. O consumidor, o personagem central da cidade moderna, ignora esse princípio e quem tem mais poder de consumo reivindica para si os benefícios da cidade. Isso está muito claro no carnaval, nos luxuosos camarotes, nas cordas que circulam os trios.

Meio ambiente, cidadania e ética atravessam a cidade da festa. A função que o homem exerce na ocupação e significação do espaço, na relação com o outro e a natureza, diz respeito a valores que
determinam a vida de cada ser no planeta. Valores que estão em crise. O homem moderno se dissociou dos propósitos mais importantes da vida, do compromisso pessoal com o estilo de vida e valores éticos. As necessidades devem ser satisfeitas levando em conta a necessidade do outro e das futuras gerações. Mas perdemos nosso senso de responsabilidade.


Almandrade
artista plástico, poeta e arquiteto


 

 

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