Cinema

Yes, nós temos um polo baiano produtor de séries para TV

Devido à fraca cobertura dos cadernos de cultura da imprensa local, pouco se sabe das excelentes e premiadas produções baianas para televisão. E vem mais por aí.


 

Regularidade de trabalho e renda para um segmento que só faz crescer na Bahia. Que segmento é esse, em tempos tão adversos?  Muitos baianos não sabem, mas o melhor é que se trata de arte. Quem explica a Outra Bahia é o cineasta José Araripe Junior, de extensa filmografia, muita história, premiado roteirista e diretor em cinema, TV e publicidade. Segundo ele, o emagrecimento do jornalismo cultural na Bahia, gerou um divórcio com o grande público, que ainda não percebeu o boom que estamos vivendo, o tamanho e a importância desse momento na produção áudio visual. A  primeira série de animação totalmente produzida na Bahia, A turma do Xaxado, da Liberato Produções, baseado nos personagens tipicamente nordestinos do quadrinista Antonio Cedraz, que morreu em 2014, ilustra nossa matéria.

 

José Araripe Junior: E.T.ílico, um piloto para a série O Sexo das Coisas.

Nos últimos anos – explica Araripe – com incremento da lei 12486 ANCINE/FSA, o Brasil intensificou a produção de séries para TV. Ao mesmo tempo, aqui na Bahia, o Irdeb, a Secretaria de Cultura do Estado, e a Fundação Gregório de Mattos lançaram editais que impulsionaram a produção local. Hoje, acreditem se quiser, a Bahia é um dos principais polos brasileiros de produção de séries.  E, para comprovar a agitação do mercado de áudio visual, Araripe que produziu o curta de animação E.T.ílico, piloto de uma série em planejamento chamada O Sexo das Coisas, lista uma dezena de produtoras baianas que realizam séries nesse momento: Truque, Tem Dendê, Malagueta, Caranguejeira, Mandacarú, Voo Audiovisual, Lart Mark, Doc Doma, Origem, entre outras.

A produção baiana é predominantemente de séries de ficção, com temática jovem e muita animação de qualidade, para exibição em canais nacionais, TV Cultura, TV Brasil, GNT, Cine Brazil TV, BOX PRIME e Play TV. E até o Disney Channel, que exibe animações da produtora Origem, de Ducca Rios. Por outro lado, na formação, bons cursos tem estimulado e qualificado profissionais, como o BI de Artes da UFBa, o curso de RTVC da Jorge Amado e a Universidade do Recôncavo, além de núcleos de formação em Ilhéus, Vitória da Conquista e outras cidades.

 

Marcos Curvelo: prêmio nacional com o curta Mamata e produção de séries.

Os diretores, criadores, os que pensam e vivem esse mundo são homens e mulheres, jovens na maioria, ao lado de nomes consagrados como o próprio Araripe Junior, o renomado fotógrafo Antonio Olavo e o cineasta Geraldo Sarno. Suas produções, circulando pelo país, algumas premiadas, como o curta Mamata de Marcus Curvelo, marcam presença e abrem espaços para a produção baiana, que tende a crescer em 2018.

Chico Liberato, o pioneiro cineasta da animação baiana no cinema.
Cândida Liberato, cineasta, na trilha do talento familiar.

Os primórdios desse atual boom remontam a 2014 quando o setor recebeu um aporte de 6 milhões e meio do governo do estado e do Fundo Setorial do Áudio Visual, que financiaria a primeira série de animação totalmente produzida na Bahia, A turma do Xaxado, da Liberato Produções. A série, baseada na obra em quadrinhos do cartunista e quadrinista Cedraz, baiano de Miguel Calmon, tem 26 episódios de 1 minuto cada e foi co-produzida pela TVE Bahia. Entre outros financiamentos, nesse período, seis propostas baianas foram contempladas no Edital da Ancine/EBC e TV Brasil de produção de conteúdos para TVs públicas, num total de 5 milhões.

 

 


Caldeirão de Criação

Num mesmo edital EBA/Ancine foram selecionados e já estão com os projetos em exibição um time de peso: Geraldo Sarno com a série documental  Sertão das Memórias, Gabriela Barreto com A Música da Minha Vida,  série para jovens passada no bairro da Liberdade; Cecília Amado com a série infantil Meu Irmão Nerd; Travessias Negras, de Antonio Olavo, série documental com cinco episódios que apresenta histórias de vida de jovens negros, que ingressaram através das Políticas de Cotas na UFBa, e a série A Bicicleta do Vovô de Henrique Dantas, que utilizou 70 técnicos, fora o pessoal de apoio do set e os figurantes.

 

 

Outro roteirista baiano, Marcelo Lima fechou 2017 envolvido em três séries: Pequenos Narradores, em produção, Malika, que está sendo roteirizada e Galera da Praia, que aguarda financiamento. Ainda colabora com argumentos na série Auts, todas para a produtora Griot Filmes.

Marcelo aponta como dificuldade do setor, a necessidade de mais roteiristas, capazes de desenvolver a linguagem específica para produtos serializados. Veja o que ele diz: “Dominar a serialização é uma tarefa que demanda estudo e compreensão dos mecanismos narrativos e dramatúrgicos. Faltam opções de estudos especializados em roteiro. Infelizmente temos poucas opções de aprofundamento na dramaturgia serializada. Em Salvador, o cenário tem melhorado muito, com a oferta de alguns cursos de curta duração e com a Usina do Drama, mais ainda é pouco”.


A Usina do Drama

A experiente Maria Carmem Jacob dá aula para formação de novos roteiristas de seriados.

A Usina do Drama é um espaço pedagógico-profissional de formação de roteiristas de séries audiovisuais que, em sua primeira temporada, orientou 49 projetos de séries televisivas de ficção, animação e documental.  A Usina, dentro do projeto de extensão Estação do Drama, da Facom/Ufba,  recebeu  150 propostas de séries e ofereceu mais de 200 horas-aula de atividades, com patrocínio do Fundo de Cultura da Bahia.

O Estação do Drama, que realiza a Usina e outras atividades, reúne profissionais e pesquisadores com experiência em narrativas serializadas que desejam contribuir para a formação e aprimoramento de novos roteiristas.


2018 promete

O movimento é intenso nas produtoras baianas e tende a crescer.  Apenas o edital do Irdeb, cujo resultado foi anunciado, vai financiar 10 novas séries. E o ano mal está começando.

Estão em exibição, em coprodução da TVE Bahia e outras emissoras, as séries de animação Bill, o Touro, de 26 episódios, da Origem Comunicação, com direção de Ducca Rios; A Natureza do Homem também com 26 episódios, da Inspirar Ideias e Criação e direção de Caó Cruz e Fausto Jr e Tadinha de 91 minutos, produção da Truque Vídeo, a Origem Comunicação, de Ana Claudia Caldas e Ducca Rios e A Professora de Música de Edson Bastos e Henrique Filho.

Giovani Lima é um dos sócios da Malagueta Filmes, que atua desde 1999 em publicidade, quando montou um núcleo de conteúdo e não parou mais. Acaba de finalizar a série Profetas da Chuva de 5 episódios de 26 minutos, que já despertou interesse do Canal Futura e do Cine Brasil TV. O financiamento foi da Secretaria de Cultura da Bahia e Ancine.

A Malagueta está em pré produção da série de ficção Gonzaguianas com 13 episódios de 26 minutos, contemplada no último edital da TV Cultura, a série documental On board e a ficção Mães em Fúria, em coprodução da Liberato Produções, além de Sotaques e Identidades, com produtoras de fora da Bahia.

Edson Bastos, da AudioVisual: “Ainda há muito o que explorar na Bahia”.

O autor de curtas e diretor de teatro Edson Bastos e o premiadíssimo Henrique Dias são sócios da produtora Voo Audiovisual. Edson considera que há muito ainda por explorar na Bahia, em matéria de temas regionais como histórias de trabalhadores e trabalhadoras rurais, os desdobramentos pós-vassoura de bruxa na Bahia, personagens e personalidades folclóricas.

Já Daniel Vasques, diretor de criação do Estúdio de Animação e Ilustração Imagine, considera que ainda existem muitas dificuldades financeiras e de reconhecimento para quem quer fazer séries de animação em Salvador: “Quando clientes do setor privado precisam deste tipo de serviço, normalmente, ainda buscam o eixo Rio-São Paulo por desacreditarem nos profissionais locais, quando na verdade existem vários artistas extremamente competentes, de alto rendimento criativo e de produção no mercado de animação soteropolitano”.

Produzido pela Truque, filme de Jorge Alfredo foi exibido na TV com sucesso de público e crítica.

Apesar das dificuldades, o fato é que a produção de séries televisivas na Bahia não para de crescer. Tem de séries de humor, como a ficção de Toni Couto, Meu Pai é um Zumbi a sólidos documentários como O Senhor das Jornadas, de Jorge Alfredo, com seis episódios produzidos pela Truque Vídeo, que conta a trajetória de Guido Araújo e sua Jornada Internacional de Cinema. São dezenas de autores, diretores, roteiristas, atores, editores, finalizadores em quase 300 produtoras, um movimento incessante e nomes, muito nomes.

 

 

“Nós autores, temos ainda um caminho
longo e lindo a pavimentar”

Sofia Frederico: autores se qualificando e conquistando espaços.

Sofia Federico, autora e realizadora da série Francisco Só Quer Jogar Bola e que tem outros trabalhos importantes no currículo, como a série Tabu e muitos planos para os próximos meses, conversou com Outra Bahia:

Por que essa tendência da atual produção áudio visual baiana para a animação e temáticas infanto-juvenis?

Não se trata exatamente de uma tendência. É resultado de um processo. É a consolidação de uma política pública para o audiovisual, que vem sendo construída desde 2003. Em 2004, tivemos um marco com o lançamento dos editais Curta Criança, pelo governo federal e TV pública (EBC). Já em 2008, foi lançado um programa de fortalecimento da animação brasileira, com o AnimaTV. Hoje, estão disponíveis diversos mecanismos de fomento voltados a criação de conteúdos para o público infantil e infantojuvenil, seja em animação ou live action. Isso é fantástico, porque existe, cada vez mais crescente, uma demanda do público por esse tipo de conteúdo. Em resumo, a produção nacional está atendendo a uma necessidade que é cultural, política e econômica, de mercado.

 

 

Mesmo com o país em crise a Bahia recebeu recursos suficientes para incrementar a produção de séries que cresceu nos últimos anos. Como está a situação de um autor, como você, hoje, na Bahia?

Vejo que o autor-criador de conteúdos audiovisuais, aqui na Bahia, está se qualificando a cada ano e conseguindo conquistar mais espaços, sobretudo porque há um mercado crescente e em consolidação. Por exemplo, desde 2015 venho escrevendo argumentos e roteiros para séries e filmes. Alguns desses já foram produzidos e estão em finalização. Antes, era preciso esperar muito pra ver o ciclo de uma obra se completar, ver a roda girar: escrever e ver aquilo que foi escrito sair do papel e alcançar a tela! Essa nova realidade é uma conquista recente, trazida pela Lei da TV a Cabo, de 2012. Então, nós, autores, temos ainda um caminho longo e lindo a pavimentar, mas precisamos compreender de forma mais profunda o nosso papel nessa rede produtiva

Fale sobre Tabu e Francisco só quer Jogar Bola, o que significou como experiência e realização.

A série Francisco só Quer Jogar Bola é de grande importância pra mim, como criadora e realizadora. Esse projeto nasceu de inquietações muito pessoais, questionamentos que me perturbam e que me movem, e que posso resumir com algumas perguntas: qual o lugar destinado hoje à infância? Que espaços simbólicos e reais são reservados à criança em nossa sociedade? Esse é o pano de fundo dessa série, que conta a história de Francisco, um menino louco por futebol, mas que não encontra lugar pra jogar bola na cidade onde vive. Pra driblar essa dificuldade, joga futebol dentro do seu apartamento, causando vários problemas. É uma comédia dramática para crianças de 6 a 10 anos. A série Tabu foi criada para tratar de temas complicados pra conversar com a criança, como morte, sexo e sexualidade, gênero, entre outros. As duas obras estarão na tela em 2018, com muita criança no elenco infantil e muitos atores baianos incríveis no elenco adulto.

 

 

3 thoughts on “Yes, nós temos um polo baiano produtor de séries para TV”

  1. Fiz um comentário, onde peço correção da matéria. Vi que não publicaram e realmente gostaria de uma satisfação.

    Atenciosamente,

    Henrique Dantas

  2. Feliz com essa nova possibilidade para atores baiano. Vida longa a este projeto. Sou ator com formação em artes cênicas pela UFBA. Aguardo convites. Obrigado João Santhana

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