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Viva Santa Bárbara, eparrei Oyá!

A Festa de Santa Bárbara abre o ciclo de festejos populares do Verão Baiano que segue até o Carnaval em fevereiro

Pelourinho, 4 de dezembro, qualquer ano. Há anos o baiano pede bênçãos a Santa Bárbara. As fotos da página são de DARIO GUIMARÃES NETO.

 


4 de dezembro é dia santificado na Bahia. Feriado ou não. É a data litúrgica em que os cristãos católicos celebram Santa Bárbara. Dia de festa no Centro Histórico de Salvador, com missa no largo do Pelourinho, altar montado do lado de fora da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos para a celebração, porque a multidão não cabe dentro do templo. Arrepia.

O vermelho predomina nas vestimentas, nas flores, o encarnado do manto da santa, as cores de Oyá/Iansã, a Orixá dos ventos, dos raios e das tempestades, a deusa do fogo, da sensualidade, a guerreira, a que está além da morte.

Que seria de Santa Bárbara sem a crença em Iansã? E o que seria de Iansã sem a fé em Santa Bárbara? Coisas e mistérios únicos da Bahia, o caldeirão de fé e misturas de nossa gente. Não busquemos explicações racionais, basta sentir as energias do céu, o axé das forças da Natureza.

A Festa de Santa Bárbara abre o ciclo de festejos populares do Verão Baiano, que segue com a Conceição da Praia, Santa Luzia, Boa Viagem, Lavagem do Bonfim já em janeiro, o 2 de fevereiro no Rio Vermelho, até o Carnaval. Viva Santa Bárbara, eparrei Oyá!


No dia 4 de dezembro, após a missa no Pelô, uma celebração cheia de sincretismos e ecumenismos, a imagem de Santa Bárbara segue em procissão acompanhada por uma multidão de fiéis que só cresce cada ano, o cortejo subindo a ladeira em direção ao Terreiro de Jesus, passando pela Praça da Sé, Misericórdia, descendo a Ladeira da Praça e parando para homenagens no pé da ladeira, diante do quartel do Corpo de Bombeiros, saudações para ela, a santa padroeira da corporação. Tem foguetes, caruru, música, toques, danças, manifestações, muitos filhos da Orixá dando santo.

 

 

Depois, o cortejo segue pela Baixa dos Sapateiros, até o Mercado de Santa Bárbara, em festa o dia inteiro, o tradicional caruru da santa servido, e muito samba varando o dia. Costuma chover um pouco no dia e os fiéis traduzem como manifestação da divindade.  Os andores com as imagens da procissão voltam para a Igreja do Rosário dos Pretos. Festa genuinamente do povo de fé dessa terra chamada Bahia.


A Santa dos Católicos

Diz a tradição cristã católica que Bárbara nasceu na segunda metade do Século III DC, na Nicomédia, região da Bitínia, às margens do Mar de Mármara, hoje Turquia. Belíssima, sagaz e inteligente, filha única de um rico e nobre senhor chamado Dióscoro, servidor do Grande Império Romano, em plena decadência, os poderes se esfacelando entre Roma e Constantinopla.

Preocupado com a esperteza da filha, querendo preservá-la do ambiente violento, depravado, e também das influências da nova, primitiva e revolucionária fé cristã que se alastrava como uma praga tanto no ocidente europeu como na parte oriental do Império, corroendo-lhe as entranhas, Dióscoro resolveu erguer uma torre em seus domínios, e dentro dela enclausurar a filha amada. Teria ele contratado um velho sábio grego como preceptor, com a missão de cuidar, ensinar, educar e preparar a garota nos conformes da época, visando a um futuro e proveitoso casamento.

Mas Bárbara era indomável, questionava aquilo tudo, rejeitava os proponentes que o pai lhe apresentava e, aproveitando-se de uma das longas viagens de negócios e política do rigoroso Dióscoro, teria aderido de vez à nova crença dos apóstolos, a do Deus único, e foi batizada na fé cristã por um sacerdote de Alexandria.

Foi um escândalo e a reputação do nobre Dióscoro chegou a tal desmoralização que ele próprio admitiu punir exemplar e publicamente a filha para que ela renegasse a fé. Mesmo sob tortura, a jovem Bárbara, não recuou, deixando as autoridades locais perplexas e o pai ainda mais furioso. A ponto, dizem, de planejar a execução da própria filha, para aplacar a fúria dos poderosos e de parte da população. Contam que Bárbara teve seus seios cortados e depois foi arrastada para fora dos muros da cidade, onde, perante uma multidão, o próprio pai a teria degolado com uma espada.

E eis que, ao executar o golpe, sob uma tempestade, uma ensurdecedora trovoada tomou os ares, assustando a todos, e um raio o fulminou no ato.

Por esse trágico e terrível episódio, Bárbara, proclamada santa e reverenciada pelos cristãos romanos e ortodoxos, ganhou o epíteto de “protetora contra relâmpagos e tempestades”, o status de padroeira dos artilheiros, dos mineradores, dos bombeiros e de todas as pessoas que trabalham com fogo.

O culto a Santa Bárbara veio dar no Brasil com os portugueses, nos tempos da colônia, da catequese jesuítica. Séculos de devoção, com muita emanação popular, ainda hoje, sobretudo na Cidade da Bahia, a capital Salvador.  Em função dessas memórias que varam os vinte séculos da fé cristã, as imagens de Santa Bárbara são representadas com uma mulher coroada defronte de uma torre, vestida de vermelho, empunhando uma espada.

Oração de Santa Bárbara

 

“Santa Bárbara, que sois mais forte que as torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me atinjam, os trovões não me assustem e o troar dos canhões não me abalem a coragem e a bravura. Ficai sempre ao meu lado para que possa enfrentar de fronte erguida e rosto sereno todas as tempestades e batalhas de minha vida, para que, vencedor de todas as lutas, com a consciência do dever cumprido, possa agradecer a vós, minha protetora, e render graças a Deus, criador do céu, da terra e da natureza: este Deus que tem poder de dominar o furor das tempestades e abrandar a crueldade das guerras. Por Cristo, nosso Senhor. Amém”


A entidade dos Terreiros 

 

Yansã, de Carybé.

 

No coração sincrético do povo que preserva a religiosidade baiana, tão única e diferente, Santa Bárbara é identificada com Iansã, a Oyá, orixá iorubana dos terreiros ketu/nagô, senhora dos mortos, a mãe do fogo, rainha dos raios, senhora das ventanias, das nuvens de chumbo, das tempestades, dos trovões, do vermelho carmim; Senhora do mundo, dentro e dona de mim.

Iansã: Uma das três esposas de Xangô, mulher corajosa e destemida, a única aiabá a quem é permitido dançar qualquer toque consagrado às outras divindades.

Cores: Vermelha e rosa.
Dia da semana: quarta-feira.
Comida: amalá (caruru), anuã, ecuru, omolucum.
Insígnias: afinjá, espada, iruquerê, iruxim.
Saudação: Eparrei!
Nomes: Oiá, Euá, Obá, Ajimudá, Balé, Cuiabalé, Mitauadê, Matamba, Bamburucema.”
(do livro ‘Falares Africanos na Bahia’, de Yeda Pessoa de Castro/ ABL)


Iansã ganha os atributos de seus amantes

 

 

Iansã usava seus encantos e sedução para adquirir poder.
Por isso entregou-se a vários homens, deles recebendo sempre algum presente.
Com Ogum, casou-se e teve nove filhos, adquirindo o direito de usar a espada em sua defesa e dos demais.
Com Oxaguiã, adquiriu o direito de usar o escudo, para proteger-se dos inimigos.
Com Exu, adquiriu os direitos de usar o poder do fogo e da magia, para realizar seus desejos e os de seus protegidos.
Com Oxóssi, adquiriu o saber da caça, para suprir-se da carne e a seus filhos.
Com Logum Edé, adquiriu o direito de pescar e tirar dos rios e cachoeiras os frutos d’água para a sobrevivência sua e de seus filhos.
Com Obaluaê, Iansã tentou insinuar-se, porém, em vão. Dele nada conseguiu.
Ao final de suas conquistas e aquisições, Iansã partiu para o reino de Xangô, envolvendo-o, apaixonando-se e vivendo com ele para a vida toda.
Com Xangô adquiriu o poder do encantamento, o posto da Justiça e o domínio dos raios.
(lenda do livro “Mitologia dos Orixás”, de Reginaldo Prandi/ Companhia das Letras)  

 

 

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