Recôncavo da Bahia

A Festa da Boa Morte é resistência e identidade

Maior manifestação de cultura étnico-religiosa do Recôncavo, a Boa Morte tem raízes católicas que floresceram no coração dos filhos dos terreiros de nação Gêge da histórica Cachoeira


Zedejesusbarreto



A dormição
de Maria

O que é a chamada ‘boa morte’?

O nome está vinculado ao mistério católico da Assunção de Nossa Senhora, a Mãe de Jesus. Segundo a tradição da Igreja Romana, Maria não teria morrido, apenas teria adormecido, e os anjos a levaram para aos céus. Daí, os fiéis chamarem esse singular momento de ‘a dormição de Maria’, representado pela criação de ícones de fé como o culto e as imagens de Nossa Senhora da Glória ou N.Sra da Vitória, culto trazido pelos europeus para o Brasil nos tempos da Colônia, difundido na Casa Grande e na Senzala, nas Igrejas e Terreiros baianos, sobretudo.

Na liturgia católica, essa celebração do mistério e dogma da Assunção de Maria acontece sempre nos meados de agosto, tendo como ápice o dia 15, a comemoração da Assunção, com missas solenes e procissões. Em Cachoeira, misturam-se os festejos da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, uma manifestação de fé, de religiosidade, de resistência e de afirmação da identidade dos povos trazidos da África como escravizados e com profundas crenças ancestrais.



Origens

A irmandade teria sido inicialmente criada entre os anos 1820/30, na Igreja da Barroquinha, em Salvador, por destemidas negras nagôs alforriadas que fundaram bem próximo ao templo católico o Ilê Iyá Omi Axé Airá Intillè,  o primeiro terreiro de candomblé de nação Ketu-Nagô dedicado a Xangô na Bahia, matriz do Gantois, da Casa Branca e do Opô Afonjá. Para essas pioneiras mulheres, o culto à Maria, Nossa Senhora, a Mãe de Jesus n,unca significou negação da tradição e da fé nos Orixás africanos.

Com a forte repressão ao culto e às manifestações de revolta dos negros escravizados (Malês, Nagôs, Gêges,  Bantus…) na Capital, milhares de africanos e descendentes  buscaram refúgio e trabalho, a sobrevivência no Recôncavo, a partir do cultivo da cana, do fumo, nas roças e no cais  de Cachoeira, o mais importante porto comercial do Recôncavo, polo abastecedor da Capital. Nessa ‘diáspora’, foram parar na região recôncava muitas ‘famílias’ de origem nagô (de língua Iorubá, vários pontos da Nigéria) e também de origem Gêge (de língua Fon, oriundos do Daomé/ Benim).

Em Cachoeira, São Félix e arredores, os gêges plantaram seus terreiros, bem escondidos, guardando seus segredos e mistérios, cultuando os Voduns (equivalente aos Orixás), louvando Nanã Buruku, a velha senhora dos pântanos, e Dã, a cobra… E trouxeram ou levaram para Cachoeira também a cultura e honraria da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, com seus festejos.

As mulheres da Irmandade são descendentes de escravizados e vinculadas aos terreiros de candomblé, sem que isso signifique rupturas. Ser da Irmandade é uma forma de dignidade, sim. Elas participam das missas, das procissões católicas com as roupas e jóias mais bonitas que possuem, contritas na fé em Maria, e, também realizam lautos banquetes, com o rigor dos rituais gêge, dançam e fazem seus trabalhos e obrigações para Nanã, nas madrugadas. E tem ainda a festa de rua, as barracas, o samba de roda, as chulas de terreiro. Tudo é encantamento, assim se preserva a História e a Tradição.

Porque assim é a Bahia. Isso é Cultura. Parte da História de um povo.

A cuia de esmoler de Jorge Amado

No ano de 1995 a sede da Irmandade estava para cair e a festa arriscada de não acontecer. Então, o escritor Jorge Amado, amante e querido da Irmandade e das irmãs da Boa Morte, tomou a frente e escreveu um texto chamado “Cuia de Esmoler”, uma espécie de carta aberta dirigida ao presidente da República, ao governador do Estado, políticos, empresários, intelectuais, artistas …  pedindo ajuda. O texto, belíssimo, foi divulgado na página três do primeiro caderno da Folha de São Paulo, na edição do dia 27 de janeiro de 1995.  Seguem alguns tópicos:

“Tomo da cuia de esmoler das mãos de Celina – Celina Maria Salla – , a infatigável, a heróica combatente. De cuia em punho, irei em frente, pedinte obstinado: a sede nova da Irmandade deve ficar pronta a 14 de agosto, dia em que a festa terá início, a procissão deste ano de 1995 deverá sair das casas reconstruídas. Para que assim seja recebo a cuia de esmoler, parto em missão.  … “São mulheres negras, velhas – Arlinda Anatária do Nascimento tem 104 anos de idade – paupérrimas, reunidas na cidade de Cachoeira há cerca de 200 anos; Libânia, a avó de Canô Veloso, bisavó dos Doces Bárbaros, foi das primeiras a ingressar na Confraria. Fundada pelos escravos, a devoção da Virgem da Boa Morte nasceu (em 1820 , segundo Odorico Tavares) nas mesmas senzalas do recôncavo baiano onde nasceu a capoeira de Angola, onde nasceram as casas de santo, os candomblés da provedora Anália de Iansã, da tesoureira Deleci de Ogum, de Estelita de oxalá, a juíza perpétua. Gente boa, vivida e sofrida, gente alegre e festeira, credoras de nosso respeito e de nosso amor. Velhas senhoras, trabalham dia e noite, ganham vinténs 

contados; elas são o alicerce africano da cultura brasileira, de nossa nação mestiça, quem sabe a pedra fundamental- elas são a causa: as criações literárias e artísticas, livros, telas de cinema, palcos de teatro, vídeos de televisão, as altas criações são a consequência … … “Na sala ampla da nova sede, museu de alfaias e paramentos, de imagens, do acervo precioso da Irmandade, as meninas – velhinhas de 90 anos, pobres de marré de si, festeiras sem igual – cantarão para a Virgem: Vestida de branco, cercada de luz, no céu aparece a Mãe de Jesus, ave, ave, ave maria. Depois, a provedora  Anália rodará a saia, sairá porta afora, as demais acompanharão, dançarão para Xangô. Cantarão para Nossa Senhora, que aqui chegou com Jesus nas caravelas lusitanas, dançarão para os Orixás, que vieram na viagem de espanto nos navios negreiros: aqui se misturaram. A Virgem Maria, Iemanjá e Mani, a raiz sagrada dos indígenas, se misturaram e cada dia se misturam mais – a cultura brasileira, meus ilustres ! “

Jorge Amado com seu canto pranteado e sua cuia de esmoler conseguiu o que queria e o que suas irmãs da Boa Morte precisavam. No velório do escritor, no dia 7 de agosto de 2001, lá estavam elas, em traje de gala, solenes, cantando em prantos, agradecidas.


Preservação

A Irmandade sempre sobreviveu do apoio dos mais abastados, dos mais ricos, comerciantes, políticos e, mais recentemente, também dos turistas, dos acadêmicos e estudiosos do mundo inteiro (sobretudo dos EUA) que se encantam com essa manifestação única, de uma cultura singular de sincretismos e misturas, coisa nossa.

Assim, sempre fez parte do calendário dos festejos, o pedido de esmola, as mulheres mais jovens indo para a rua no começo de agosto, de casa em casa, ‘de cuia na mão’ a pedir ajuda para a festa. É tradição.

Alguns governantes muito ajudaram na preservação dessas tradições étnico-religiosas. Como o governador Octávio Mangabeira, nos anos 1940/50; como o chamado ‘déspota esclarecido’ Antonio Carlos Magalhães, governador, senador…

Assim as mulheres da Irmandade conseguiram uma sede, numa das ruas principais da cidade, para suas reuniões, festejos, referência, guardados… Sede que foi restaurada mais recentemente no governo Jaques Wagner.

Cobra-se mais presença, ajuda financeira da Prefeitura de Cachoeira, afinal a cidade tem na Boa Morte sua festa maior, de resplandescência internacional.  A Irmandade também merecia uma acolhida de verdade da Universidade Federal do Recôncavo, não fosse a festa de agosto uma aula viva de Brasil, de Bahia.

As relações da Irmandade com a Igreja Católica oscilam historicamente: há momentos de tolerância, momentos de desinteligências e até de repugnância e atritos, e até momentos de respeito mútuo, a depender muito de quem está à frente dos interesses da Cúria, da Arquidiocese.


Detalhes

Hoje, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte conta com 21 mulheres com idade entre 41 e 101 anos. Para garantir a manutenção diária da sede, a Irmandade emprega três funcionários, cobram ingressos para visitação pública e vendem artesanatos que remetem ao candomblé.

No acervo da Boa Morte há coroas, braceletes, vestes e muitos adereços de ouro e prata, além de fotografias e obras doadas por artistas.

O registro em documentos que comprovem as origens da Irmandade em Cachoeira são escassos, há poucas fotografias antigas. Segundo Valmir Santana, gerente administrativo e mediador cultural da Irmandade da Boa Morte, é possível que as primeiras irmãs vindas de Salvador tenham iniciado seus trabalhos ainda no terreiro do Ventura de Cima, considerado um dos primeiros do Brasil.

A certeza é que essas mulheres se uniram às negras que moravam na Casa Estrela, na rua Ana Neri, em Cachoeira, por volta de 1840. Ali  faziam rituais que cultuavam os mortos/eguns, voduns e orixás.

Colaborou a repórter Vaneza Melo.

Fotos: Adenor Gondin.

One thought on “A Festa da Boa Morte é resistência e identidade”

Cometários Encerrados.

Veja Também