Cultura

Salve Mestre Didi, ancestralidade viva

O tombamento do Ilê Axé Asipá e o filme Alàpini – A herança ancestral do Mestre Didi Asipá celebram 100 anos de nascimento do sacerdote artista, o escultor do sagrado

Sacerdote artista sempre prezou pela formação e auto-estima do povo negro.
Cetro da Ancestralidade, Rio Vermelho. Obra de arte, objeto sagrado; ao fundo, o horizonte do mar que leva à África.


O tombamento do terreiro Ilê Axé Asipá, pelo Ipac- Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural, e o lançamento do documentário “Alàpini – A herança ancestral do Mestre Didi Asipá” marcam as comemorações dos 100 anos de nascimento de Deoscóredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi, artista plástico e sacerdote supremo na Bahia do culto dos Eguns, ou Egunguns, os antepassados, aqueles que já se foram para outra dimensão de vida, no Orum.

Deoscóredes nasceu no dia 2 de dezembro de 1917, dentro do terreiro ketu/nagô Ilê Axé Opô Afonjá, fundado por Mãe Aninha em 1910 na então longínqua Roça de São Gonçalo do Retiro; e faleceu em outubro de 2013, deixando 20 livros escritos sobre a cultura e as tradições negras de origem nagô, língua yorubá (região da costa atlântica da África, onde hoje localizam-se a Nigéria e o Benim), e um acervo inestimável de obras, únicas, a maior parte esculturas feitas com palhas de palmeiras, cipós, sementes, conchas e búzios.

Os trabalhos do Mestre Didi, como o mundo o conhece, são inspirados no sagrado do culto afro-baiano; peças que podem ser vistas pelo mundo afora como no Museu Guggenheim, em Nova York, no Pompidou de Paris,  no Museu Afro-Brasil de São Paulo, no Museu de Arte Moderna da Bahia/Unhão, no Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira, o MUNCAB, no Centro Histórico de Salvador; e até na beira da praia do Rio Vermelho, em Salvador – o Cetro da Ancestralidade, em bronze, com sete metros de altura, postada de frente para o horizonte do mar atlântico, o mesmo que vai banhar a costa da África, no adiante infindo; lá, desde fevereiro de 2002.


 

Mãe Ancestral da Terra, Museu de Arte Moderna, Solar do Unhão.

 

O escultor do sagrado

Ele, que era de pouco falar, deixou dito sobre seu ofício, suas esculturas:

“Os Orixá do Panteão da Terra são os que nos alimentam e nos ajudam a manter a vida. Os meus trabalhos são inspirados na natureza, na Mãe-Terra-Lama, representada pela Orixá Nanã, patrona da agricultura”.

O artista plástico e crítico de arte baiano Cesar Romero aclara ainda mais:

As esculturas de Mestre Didi, de grande leveza, trazem intrínseca a força arquetípica e simbólica de uma África remota. Uma visão teológica e mítica de seus antepassados. Sua arte não é ritualística, mas um conjunto orgânico de elementos visuais de raiz ascendente”.


Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiwà, foi a terceira Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador, Bahia (31/3/1890 * 22/2/1967)

Filho de Mãe Senhora

Para quem não sabe, Deoscóredes, o Mestre Didi, é filho sanguíneo de Mãe Senhora, uma das mais importantes Yalorixás do Opô Afonjá, a Roça de São Gonçalo do Retiro, hoje no comando de Mãe Stella de Oxóssi. Mãe Senhora que acolheu e adotou o fotógrafo francês Pierre Verger, encaminhando-o para a África Nagô em busca das raízes do terreiro baiano, transformando, a partir de então, a vida do “Fatumbi” Verger. Mãe Senhora que fez de Jorge Amado, Carybé, Verger e Dorival Caymmi Obás de Xangô, ministros do Opô Afonjá.

Mestre Didi teve três filhas (Inaycira, Jaguaracyra e Nídia de Yemanjá) com sua primeira esposa, Edvaldina, e viveu depois cinquenta anos, até a morte, com a antropóloga argentina Juana Elbein, a Juanita, que detém a guarda do acervo dele. Juanita o acompanhava em tudo, nas ocupações do terreiro, no trabalho artístico, nos escritos, nas viagens pela África, nas entrevistas pelo mundo expondo e divulgando o trabalho do Mestre, sacerdote e companheiro.


Vitória do povo de santo

O Terreiro Ilê Axé Asipá, sociedade cultural e religiosa localizada no bairro de Piatã/SSA, foi criado e fundado por Mestre Didi em 1980, ele o Alapini, sacerdote-mor do culto aos Eguns. A casa está hoje sob a liderança de Genaldo Novaes, o Ojé Alagba (líder da comunidade), que conviveu com Mestre Didi desde nanico:

Ele foi um pai para mim, me ajudou em tudo na vida, me ensinou yorubá, me incentivou a fazer faculdade, graduação em engenharia e me chamou para integrar o Conselho Religioso do Instituto Nacional da Tradição e Cultura.  

 Para Genaldo, o tombamento do terreiro é uma vitória, o reconhecimento de tudo o que foi, o que fez e o que deixou de herança o Alapini, Mestre Didi.

Nas fotos acima: o mestre fazendo esculturas referenciais das raízes africanas, e no Ilê Axé Opô Afonjá, o educador Mestre Didi, inspirador e criador da Mini Comunidade Oba Biyi, onde crianças de 3 a 14 anos aprendem sobre suas origens, idioma e heranças ancestrais


 

Documentário mergulha nas origens do culto aos eguns e ressalta ensinamentos de Mestre Didi.

 

Filme resgata vida e obra

O documentário “Alàpini – Terreiro Ilê Axé Asipá” (lançado no dia 30 de novembro, na sala Walter da Silveira, Biblioteca Central dos Barris) é um resgate da vida e o obra do Mestre, artista e sacerdote, a partir da vontade e do estímulo do neto José Félix , morto em setembro, e sob a batuta e direção de Emílio Le Roux, Hans Herold e Silvana Moura, eles próprios frequentadores do terreiro e apaixonados pela obra de Mestre Didi. O filme foi vencedor de um edital da Uneb.  Silvana Moura fala sobre o documentário:

– O filme é composto por dezenas de entrevistas com pessoas do terreiro, que conviveram com Mestre Didi durante 30 , 40 anos  e foram formadas por ele, uma espécie de pai e sacerdote de todos.


EGUMegungum, eguigun, quifuba. O espírito do morto, a alma humana; o espírito desencarnado dos antepassados no culto ketu/nagô, sempre tratado por babá; o mascarado na evocação ou aparição dos mortos, cujo terreiro principal se encontra na localidade de Amoreiras, na Ilha da Itaparica – Baía de Todos-os-Santos.

Outros nomes: Babá Abaolá, Babaoquim, Babá-Olucotum, Babá-orumilá, Egum-emaim, Egum-lidã. Símbolo: Ixã (açoite); Santuário: Ilêssainhe; Comida: Iri (farelo de milho); Sacerdote: Babá Ojé

(pesquisa: “Falares Africanos na Bahia”, de Yeda Pessoa de Castro)

 

 

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