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Primeira Entrevista

Lampião diz porque não tem medo de nada, seu ódio aos soldados e o respeito ao povo

Em 1926, o Rei do Cangaço, aos 17 anos, dá entrevista onde revela como virou cangaceiro, tornou-se líder dos bandoleiros da caatinga e mito de um tempo.

Todas as fotos em preto e branco são do sírio-libanês Benjamin Abrahão, que filmou e fotografou Lampião, à esquerda de Maria Bonita, e seus bandoleiros da caatinga.

Lampião e Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram assassinados a tiros de metralhadora portátil numa emboscada fatal na madrugada de 28 de julho de 1938 na Grota do Angico, uma fortaleza de pedras escondida na caatinga, encravada numa depressão perto do riacho Tamanduá e próxima ao rio São Francisco, no município sergipano de Poço Redondo.

Dr. Otacílio Macêdo e Lampião em fotografias feitas por Lauro Cabral de Oliveira em 07 de março de 1926 na cidade de Juazeiro do Norte/CE, um dia após a entrevista.

Doze anos antes, em 1926, o Rei do Cangaço (1898/1938), aos 27 anos, concedeu sua primeira entrevista, nos dias 6 e 7 de março de 1926, ao médico do Crato, Octacílio Macêdo, no sobrado de João Mendes de Oliveira, em Juazeiro do Norte, Ceará, onde estava sob a proteção e os cuidados do padre Cícero Romão, o Padim Ciço. Foi publicada no jornal “O Ceará”, nos dias 17 e 18 de março daquele ano.  Na entrevista fala porque entrou para a vida do cangaço, seu respeito pelos padres e ao povo e porque não tem medo de nada.

No livro “Lampião e o Estado Maior do Cangaço” de Hilário Lucetti e Magérbio de Lucena, dois estudiosos do Cariri cearense confirmam a autenticidade  da histórica entrevista. Diz o livro, falando da passagem de lampião pelo Ceará ”… à tarde concebeu uma demorada entrevista ao médico cratense, Dr.Octacílio Macedo, irmão do brigadeiro Macedo, e se deixou fotografar com seus familiares e com seu bando pelos senhores Lauro Cabral de Barbalha e Pedro Maia do Crato”. Lampião e seu bando saíram de Pernambuco e foram a Juazeiro do Norte, no Ceará, a convite do padre Cícero Romão, para receber a patente de Capitão Virgulino. Era o chamariz para ganhar sua adesão ao governo federal que cogitava ter Lampião nas fileiras de frente do Batalhão Patriótico, formado por forças da união para combater a Coluna Prestes, movimento contrário à República Velha e às elites agrárias (1925/1927).

Jornal do Recife, 10/04/1926 , quase um mês depois, comenta sobre a entrevista dada ao Dr .Octacílio Macêdo.



Essa versão que Outra Bahia publica só voltou a circular, repaginada no vocabulário, nas décadas de 1970 e 1990, já com as palavras ditas por Lampião adaptadas à linguagem convencional  pelo advogado João Marcelino Mariz, a quem se atribui sua mais ampla divulgação, e, posteriormente, com texto atualizado do escritor cearense Nertan Macêdo, autor de vários livros sobre o tema, entre eles “Capitão Virgulino Lampião”. Trata-se do texto original adaptado pelo advogado João Marcelino Mariz, a quem se atribui sua mais ampla divulgação.

Chegou à redação de Outra Bahia porque, há alguns anos, o jornalista Albenísio Fonseca parou numa banca de revista da Chapada Diamantina e lá encontrou exposta uma revista contendo essa famosa entrevista concedida ao médico do Crato, Dr. Octacílio Macêdo. Com essa preciosidade histórica, Outra Bahia antecipa os 80 anos da morte de Lampião, ocorrida em 1938, e os 120 anos do seu nascimento. Para entender melhor o Brasil e suas mil e uma faces sociais, culturais, políticas e econômicas temos que também conhecer e compreender o fenômeno do cangaço e do seu líder maior (Da Redação).


A primeira entrevista de Lampião aos 27 anos

 O texto abaixo é de João Marcelino Mariz (advogado), publicado na revista LAMPIÃO, a partir dos originais do médico entrevistador Dr. Octacílio Macêdo.

Foto de Lauro Cabral.
O artista e historiador baiano Rubens Antonio é o autor das imagens colorizadas, a partir dos originais de Lauro Cabral (esta foto)  e do sírio-libanês Benjamin Abrahão,
 


Lampião, durante sua visita a Juazeiro do Norte, para onde se dirigia a convite do Padre Cícero Romão para integrar o Batalhão Patriótico no combate à Colina Prestes, foi entrevistado pelo médico de Crato, Dr. Octacílio Macedo. Naquela ocasião Lampião estava hospedado no sobrado de João Mendes de Oliveira e, durante a entrevista, foi várias vezes à janelam atirando moedas para o povo que se aglomerava na rua.

Essa entrevista é considerada pelos historiadores como peça fundamental no estudo e no conhecimento do fenômeno do cangaço. Vale a pena transcrever seus trechos mais importantes, atualizando a linguagem e traduzindo os numerosos termos regionais para a linguagem de hoje. A entrevista teve dois momentos. O primeiro foi travado o seguinte diálogo:

Que idade tem?

Vinte e sete anos.

Há quanto tempo está nesta vida?

Há nove anos, desde 1917, quando me ajuntei ao grupo do Senhor Pereira.

Não pretende abandonar a profissão?
A esta pergunta Lampião respondeu com outra:

Se o senhor estiver em um negócio, e for se dando bem com ele pensará porventura em abandoná-lo? Pois é exatamente o meu caso. Porque vou me dando bem com este “negócio”, ainda não pensei em abandoná-lo.

Em todo o caso, espera passar a vida toda neste “negócio”?

Não sei… talvez… preciso porém “trabalhar” ainda uns três anos. Tenho alguns “amigos” que quero visitá-los, o que ainda não fiz, esperando uma oportunidade.

E depois, que profissão adotará?

Talvez a de negociante.

Não se comove a extorquir dinheiro e a “variar” propriedades alheias?

Oh! Mas eu nunca fiz isto. Quando preciso de algum dinheiro, mando pedir “amigavelmente” a alguns camaradas.

Nessa altura chegou o 1º tenente do Batalhão Patriótico de Juazeiro, e chamou Lampião para um particular. De volta avisou-nos o facínora:

Só continuo a fazer este “depoimento” com ordem do meu superior. (Sic!)

E quem é seu superior?

!!

Está direito…

Quando voltamos, algumas horas depois, à presença de Lampião, já este se encontrava instalado em casa do historiador brasileiro João Mendes de Oliveira. Rompida, novamente, a custo, a enorme massa popular que estacionava defronte à casa, penetramos por um portão de ferro, onde veio Lampião ao nosso encontro, dizendo:

— Vamos para o sótão, onde conversaremos melhor.

Subimos uma escada de pedra até o sótão. Aí notamos, seguramente, uns quarenta homens de Lampião, uns descansando em redes, outros conversando em grupos; todos, porém, aptos à luta imediata: rifle, cartucheiras punhais e balas…

Desejamos um autógrafo seu, Lampião.

Pois não.

Sentado próximo de uma mesa, o bandido pegou da pena e estacou, embaraçado:

Que qui escrevo?

Eu vou ditar.

E Lampião escreveu com mãos firmes, caligrafia regular.

“Juazeiro, 6 de março de 1926. Para… E o Coronel… Lembrança de EU. Virgulino Ferreira da Silva. Vulgo Lampião”.

Os outros facínoras observavam-nos, com um misto de simpatia e desconfiança. Ao lado, como um cão de fila, velava o homem de maior confiança de Lampião, Sabino Gomes, seu lugar-tenente, mal-encarado.

É verdade, rapazes! Vocês vão ter os nomes publicados nos jornais em letras redondas…

A esta afirmativa, uma gozaram o efeito dela, porém parece que não gostaram da coisa.

Agora, Lampião, pedimos para escrever os nomes dos rapazes de sua maior confiança.

Pois não. E para não melindrar os demais companheiros, todos me merecem igual confiança, entretanto poderia citar o nome dos companheiros que estão a mais tempo comigo.

E escreveu:

  1. Luiz Pedro
  2. Jurity
  3. Xumbinho
  4. Nuvueiro
  5. Vicente
  6. Jurema

E o estado-maior:

  1. Eu, Virgulino Ferreira
  2. Antônio  Ferreira
  3. Sabino Gomes.

Passada a lista para nossas mãos fizemos a “chamada” dos cabecilhas fulano, cicrano, etc.  Todos iam explicando a sua origem e os seus feitos. Quando chegou a vez de “Xumbinho”, apresentou-se-nos um rapazola, quase preto, sorridente, de 18 anos de idade.  É verdade, “Xumbinho”! Você, rapaz tão moço, foi incluído por Lampião na lista dos seus melhores homens… Queremos que você nos ofereça uma lembrança…“Xumbinho” gozou o elogio. Todo humilde, tirou da cartucheira uma bala e nos ofereceu como lembrança…

No caso de insucesso com a polícia, quem o substituirá como chefe do bando?

Meu irmão Antônio Ferreira ou Sabino Gomes…

Os jornais disseram, ultimamente, que o tenente Optato, da polícia pernambucana, tinha entrado em luta com o grupo, correndo a notícia oficial da morte de Lampião.

É, o tenente é um “corredor”, ele nunca fez a diligência de se encontrar “com nós”; nós é que lhe matemos alguns soldados mais afoitos.

E o cel. João Nunes, comandante geral da polícia de Pernambuco, que também já esteve no seu encalço?

Ah, este é um “velho frouxo”, pior do que os outros…

Neste momento chegou ao sótão uma “romeira” velha, conduzindo um presente para Lampião. Era um pequeno “registro” e um crucifixo de latão ordinário. “Velinha”, apresentando as imagens:

“Stá aqui, seu coroné Lampião, que eu truve para vosmecê”.

Este santo livra a gente de balas? Só me serve si for santo milagroso.

Depois, respeitosamente, beijou o crucifixo e guardou-o no bolso. Em seguida tirou da carteira uma nota de 10$000 e gorgetou a romeira.

Que importância já distribuiu com o povo de Juazeiro?
Lampião começou por identificar-se:

Chamo-me Virgulino Ferreira da Silva e pertenço à humilde família Ferreira do Riacho de São Domingos, município de Vila Bela. Meu pai, por ser constantemente perseguido pela família Nogueira e em especial por Zé Saturnino, nossos vizinhos, resolveu retirar-se para o município de Águas Brancas, no estado de Alagoas. Nem por isso cessou a perseguição.

Em Águas Brancas, foi meu pai, José Ferreira, barbaramente assassinado pelos Nogueira e Saturnino, no ano de 1917. Não confiando na ação da justiça pública, por que os assassinos contavam com a escandalosa proteção dos grandes, resolvi fazer justiça por minha conta própria, isto é, vingar a morte do meu progenitor. Não perdi tempo e resolutamente arrumei-me e enfrentei a luta. Não escolhi gente das famílias inimigas para matar, e efetivamente consegui dizimá-las consideravelmente.

Sobre os grupos a que pertenceu:

Já pertenci ao grupo do Sinhô Pereira, a quem acompanhei durante dois anos. Muito me afeiçoei a este meu chefe, porque é um leal e valente batalhador, tanto que se ele ainda voltasse ao cangaço iria ser seu soldado.

Sobre suas andanças e seus perseguidores:

Tenho percorrido os sertões de Pernambuco, Paraíba e Alagoas, e uma pequena parte do Ceará.Com as polícias desses estados tenho entrado em vários combates. A de Pernambuco é disciplinada e valente, e muito cuidado me tem dado. A da Paraíba, porém, é uma polícia covarde e insolente. Atualmente existe um contingente da força pernambucana de Nazaré que está praticando as maiores violências, muito se parecendo com a força paraibana.

Referindo-se a seus coiteiros, Lampião esclareceu:

Não tenho tido propriamente protetores. A família Pereira, de Pajeú, é que tem me protegido mais ou menos. Todavia, conto por toda parte com bons amigos, que me facilitam tudo e me consideram eficazmente quando me acho muito perseguido pelos governos.

Se não tivesse de procurar meios para a manutenção dos meus companheiros, poderia ficar oculto indefinidamente, sem nunca ser descoberto pelas forças que me perseguem.

De todos meus protetores, só um traiu-me miseravelmente. Foi o coronel José Pereira Lima, chefe político de Princesa. É um homem perverso, falso e desonesto, a quem durante anos servi, prestando os mais vantajosos favores de nossa profissão.

A respeito de como mantém o grupo:

Consigo meios para manter meu grupo pedindo recursos aos ricos e tomando à força aos usurários que miseravelmente se negam de prestar-me auxílio.

Se estava rico:

Tudo quanto tenho adquirido na minha vida de bandoleiro mal tem chegado para as vultuosas despesas do meu pessoal – aquisição de armas, convindo notar que muito tenho gasto, também, com a distribuição de esmolas aos necessitados.

A respeito do número de seus combates e de suas vítimas disse:

Não posso dizer ao certo o número de combates em que já estive envolvido. Calculo, porém, que já tomei parte em mais de duzentos. Também não posso informar com segurança o número de vítimas que tombaram sob a pontaria adestrada e certeira de meu rifle. Entretanto, lembro-me perfeitamente que, além dos civis, já matei três oficiais de polícia, sendo um de Pernambuco e dois da Paraíba. Sargentos, cabos e soldados, é impossível guardar na memória o número dos que foram levados para o outro mundo.

Sobre as perseguições e fugas, deixou claro:

Tenho conseguido escapar à tremenda perseguição que me movem os governos, brigando como louco e correndo rápido como vento quando vejo que não posso resistir ao ataque. Além disso, sou muito vigilante e confio sempre desconfiando, de modo que dificilmente me pegarão de corpo aberto.

Ainda é de notar que tenho bons amigos por toda parte, e estou sempre avisado do movimento das forças.

Tenho também excelente serviço de espionagem, dispendioso mas utilíssimo.

Comportamento mereceu alguns comentários bastante francos:

Tenho cometido violências e depredações vingando-me dos que me perseguem e em represália a inimigos. Costumo, porém, respeitar as famílias, por mais humildes que sejam, e quando sucede algum do meu grupo desrespeitar uma mulher, castigo severamente.

Perguntado se deseja deixar essa vida:

Até agora não desejei abandonar a vida das armas, com a qual já me acostumei e sinto-me bem. Mesmo que assim não sucedesse, não poderia deixá-la porque os inimigos não se esquecem de mim, e por isso eu não posso e nem devo deixá-los tranquilos. Poderia retirar-me para um lugar longínquo, mas julgo que seria uma covardia, e não quero nunca passar por um covarde.

Gosto geralmente de todas as classes. Aprecio de preferência as classes conservadoras – agricultores, fazendeiros, comerciantes, etc, por serem os homens do trabalho. Tenho veneração e respeito pelos padres porque sou católico. Sou amigo dos telegrafistas, porque alguns já me têm salvo de grandes perigos. Acato os juízes, porque são homens da lei e não atiram em ninguém.

Só uma classe eu detesto: é a dos soldados, que são meus constantes perseguidores. Reconheço que muitas vezes eles me perseguem porque são sujeitos, e é justamente por isso que ainda poupo alguns quando os encontro fora da luta.

Perguntado sobre o cangaceiro mais valente do Nordeste:

A meu ver o cangaceiro mais valente do nordeste foi Sinhô Pereira. Depois dele, Luiz Padre. Penso que Antônio Silvino foi um covarde, porque se entregou às forças do governo em consequência de um pequeno ferimento. Já recebi ferimentos gravíssimos e nem por isso me entreguei à prisão.

Conheci muito José Inácio de Barros. Era um homem de planos, e o maior protetor dos cangaceiros do Nordeste, em cujo convívio sentia-se feliz.

Questionado sobre ferimentos em combate, contou que:

Já recebi quatro ferimentos graves. Dentre estes, um na cabeça, do qual só por milagre escapei. Os meus companheiros também, vários têm sido feridos. Possuímos, porém, no grupo, pessoas habilitadas para tratar dos ferimentos, de modo que sempre somos convenientemente tratados. Por isso, como o senhor vê, estou forte e perfeitamente sadio, sofrendo, raramente, ligeiros ataques reumáticos.

Sobre ter numeroso grupo:

Desejava andar sempre acompanhado de numeroso grupo. Se não o organizo conforme o meu desejo é porque me faltam recursos materiais para a compra de armamentos e para a manutenção do grupo – roupa, alimentação, etc. Estes que me acompanham é de quarenta e nove homens, todos bem armados e municiados, e muito me custa sustentá-los. O meu grupo nunca foi muito reduzido, tem variado sempre de quinze a cinquenta homens.

Sobre Padre Cícero Lampião foi bem específico:

Sempre respeitei e continuo a respeitar o estado do Ceará, porque aqui não tenho inimigos, nunca me fizeram mal, e além disso é o estado do padre Cícero. Como deve saber, tenho a maior veneração por esse santo sacerdote, porque é o protetor dos humildes e infelizes, e sobretudo porque há muitos anos protege minhas irmãs, que moram nesta cidade. Tem sido para elas um verdadeiro pai. Convém dizer que eu ainda não conhecia pessoalmente o padre Cícero, pois esta é a primeira vez que venho a Juazeiro.

Em relação ao combate aos revoltosos:

Tive um combate com os revoltosos da coluna Prestes, entre São Miguel e Alto de Areias. Informado de que eles passavam por ali, e sendo eu um legalista, fui atacá-los, havendo forte tiroteio. Depois de grande luta, e estando com apenas dezoito companheiros, vi-me forçado a recuar, deixando diversos inimigos feridos.

A respeito da sua vinda ao Ceará:

Vim agora ao Cariri porque desejo prestar meus serviços ao governo da nação. Tenho o intuito de incorporar-me às forças patrióticas do Juazeiro, e com elas oferecer combate aos rebeldes. Tenho observado que, geralmente, as forças legalistas não têm planos estratégicos, e daí os insucessos dos seus combates, que de nada tem valido. Creio que se aceitassem meus serviços e seguissem meus planos, muito poderíamos fazer.

Sobre o futuro, Lampião mostrou-se incerto, apesar de ter planos:

Estou me dando bem no cangaço, e não pretendo abandoná-lo. Não sei se vou passar a vida toda nele. Preciso trabalhar ainda uns três anos. Tenho de visitar alguns amigos, o que não fiz por falta de oportunidade. Depois, talvez me torne um comerciante.

Aqui termina a entrevista concedida por Lampião em Juazeiro.

Na despedida Lampião nos acompanhou até a porta. Pediu nosso cartão de visita e acrescentou:

Espero contar com os “votos” dos senhores em todo tempo!

Que dúvida… respondemos. Como sabemos, Lampião, o “Rei do Cangaço”, não viveu o suficiente para ver todos seus planos concretizados. 

Foto de Benjamin Abrahão.
Colorização de Rubens Antonio.

 




De menino da roça a rei do cangaço

 

 

Virgolino Ferreira da Silva era o terceiro dos muitos filhos de José Ferreira da Silva e de Maria Lopes. Nasceu em 1898, como consta em sua certidão de batismo, e não em 1897, como citado de várias obras.  A família Ferreira formou-se na seguinte sequência, por datas de nascimento: 1895 – Antônio Ferreira da Silva / 1896 – Livino Ferreira da Silva/ 1898 – Virgolino Ferreira da Silva/ ???? – Virtuoso Ferreira/ 1902 – João Ferreira dos Santos/ ???? – Angélica Ferreira/ 1908 – Ezequiel Ferreira/ 1910 – Maraia Ferreira (conhecida como Mocinha)/ 1912 – Anália Ferreira

Todos os filhos do casal nasceram no sítio Passagem das Pedras, pedaço de terra desmembrado da fazenda Ingazeira, às margens do Riacho São Domingos, no município de Vila Bela, atualmente Serra Talhada, no Estado de Pernambuco. Esse sítio ficava a uns 200 metros da casa de dona Jacosa Vieira do Nascimento e Manoel Pedro Lopes, avós maternos de Virgolino. Por causa dessa proximidade Virgolino residiu com eles durante grande parte da sua infância. Seus avós paternos eram Antônio Ferreira dos Santos Barros e Maria Francisca da Chaga, que residiam no sítio Baixa Verde, na região de Triunfo, em Pernambuco.  A infância de Virgolino transcorreu normalmente, em nada diferente das outras crianças que com ele conviviam. Todas as informações disponíveis levam a crer que as brincadeiras de Virgolino com seus irmãos e amigos de infância eram nadar no Riacho São Domingos e atirar com bodoque, um arco para bolas de barro.

Também brincavam de cangaceiros e volantes, como todos os outros meninos da época, imitando, na fantasia, a realidade do que viam à sua volta, “enfrentando-se” na caatinga. Em outras palavras, brincavam de “mocinho e bandido”, como faziam as crianças nas outras regiões mais desenvolvidas do país.  Foi alfabetizado por Domingos Soriano e Justino de Nenéu, juntamente com outros meninos. Frequentou as aulas por apenas três meses, tempo suficiente para que aprendesse as primeiras letras, e pudesse, pelo menos, escrever e responder cartas, o que já era mais instrução do que muitos conseguiam durante toda sua vida, naquelas circunstâncias.

O sustento da família vinha do criatório e da roça em que trabalhavam seu pai e os irmãos mais velhos, e da almocrevaria. O trabalho de almocreve estava mais a cargo de Livino e de Virgolino, e consistia em transportar mercadorias de terceiros no lombo de uma tropa de burros de propriedade da família.  Os trajetos variavam bastante, mas de forma geral iniciavam-se no ponto final da Great Western, estrada de ferro que ligava Recife a Rio Branco, hoje chamada Arcoverde, em Pernambuco. Ali recolhiam as mercadorias a serem distribuídas pelos locais designados por seus contratantes, em diversas vilas e lugarejos do sertão. Esse conhecimento precoce dos caminhos do sertão foi, sem dúvida, muito valioso para o cangaceiro Lampião, alguns anos mais tarde.

Por duas vezes Virgolino acompanhou a tropa até o sertão da Bahia, mais exatamente até as cidades de Uauá e Monte Santo. Nesta última havia um depósito de peles de caprinos, que eram, de tempo em tempos, enviadas pelo responsável, Salustiano de Andrade, para a Pedra de Delmiro, em Alagoas, para processamento e exportação para a Europa. Esta informação nos foi prestada por dona Maria Corrêa, residente em Monte Santo, Bahia. Dona Maria Corrêa, mais conhecida como Maria do Lúcio, exercia a profissão de parteira e declarou-nos que, quando jovem, conheceu Virgolino Ferreira durante uma de suas visitas ao depósito de peles.

Como curiosidade e melhor identificação, dona Maria Corrêa é a partira que foi condecorada pelo então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira ao completar mil partos realizados com sucesso. É bom frisar que as peles caprinas não eram compradas pelos Ferreira, apenas transportadas por eles, num serviço semelhante ao do frete rodoviário dos dias atuais. Em quase todas suas viagens os irmãos tinham a companhia de Zé Dandão, indivíduo que conviveu durante muito tempo com a família Ferreira. Nossas pesquisas na região comprovaram, através de diversos depoimentos pessoais, que José Ferreira, o patriarca da família, era pessoa pacata, trabalhadora, ordeira e de ótima índole, do tipo que evita ao máximo qualquer desentendimento.

Esses depoimentos positivos merecem especial atenção e ainda maior credibilidade por terem sido prestados por pessoas inimigas da família. Apesar da inimizade preferiram contar a verdade a denegrir gratuitamente o nome de José Ferreira. A mãe de Virgolino já era um pouco diferente, mais realista em relação ao ambiente em que viviam. De maneira geral todos os entrevistados declararam que José Ferreira desarmava os filhos na porta da frente e dona Maria os armava na porta de trás dizendo:

Filho meu não é para ser guardado no carito. Não criei filho para ser desmoralizado.


A morte de Lampião e Maria Bonita:
coiteiro dedura esconderijo

 

 

No dia 27 de julho de 1938, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas.  A volante chegou tão de mansinho que nem os cães pressentiram. Por volta das 5h15 do dia 28, os cangaceiros levantaram para rezar o ofício e se prepararem para tomar o café, foi quando um cangaceiro deu o alarme, já era tarde demais.

Não se sabe ao certo quem os traiu. Entretanto, naquele lugar mais seguro, segundo a opinião de Virgulino, o bando foi pego totalmente desprevenido. Quando os policiais do tenente João Bezerra e do sargento Aniceto Rodrigues da Silva, abriram fogo com metralhadoras portáteis, os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa.

O ataque durou uns vinte minutos e poucos conseguiram escapar ao cerco e à morte. Dos trinta e quatro cangaceiros presentes, onze morreram ali mesmo. Lampião foi um dos primeiros a morrer. Logo em seguida, Maria Bonita foi gravemente ferida. Alguns cangaceiros, transtornados pela morte imediata do seu líder, conseguiram escapar.

Bastante eufóricos com a vitória, os policiais apreenderam os bens e mutilaram os mortos. Apreenderam todo o dinheiro, o ouro e as jóias. A força volante, de maneira bastante desumana para os dias de hoje, mas seguindo o costume da época, decepa a cabeça de Lampião. Maria Bonita ainda estava viva, apesar de bastante ferida, quando sua cabeça foi degolada.

O mesmo ocorreu com Quinta-Feira, Mergulhão (os dois tiveram suas cabeças arrancadas em vida), Luis Pedro, Elétrico, Enedina, Moeda, Alecrim, Colchete (2) e Macela. Um dos policiais, demonstrando ódio a Lampião, desfere um golpe de coronha de fuzil na sua cabeça, deformando-a. Este detalhe contribuiu para difundir a lenda de que Lampião não havia sido morto, e escapara da emboscada, tal foi a modificação causada na fisionomia do cangaceiro.

 

 

Feito isso, salgaram as cabeças e as colocaram em latas de querosene, contendo aguardente e cal. Os corpos mutilados e ensanguentados foram deixados a céu aberto para servirem de alimento aos urubus. Para evitar a disseminação de doenças, dias depois foi colocado creolina sobre os corpos. Como alguns urubus morreram intoxicados por creolina, este fato ajudou a difundir a crença de que eles haviam sido envenenados antes do ataque, com alimentos entregues pelo coiteiro traidor.

Percorrendo os estados nordestinos, o coronel João Bezerra exibia as cabeças – já em adiantado estado de decomposição – por onde passava, atraindo uma multidão de pessoas. Primeiro, os troféus estiveram em Piranhas, onde foram arrumadas cuidadosamente na escadaria da igreja, junto com armas e apetrechos dos cangaceiros, e fotografadas. Depois Maceió e depois, foram ao sul do Brasil.

No IML de Maceió, as cabeças foram medidas, pesadas, examinadas, pois os criminalistas achavam que um homem bom não viraria um cangaceiro: este deveria ter características sui generis. Ao contrário do que pensavam alguns, as cabeças não apresentaram qualquer sinal de degenerescência física, anomalias ou displasias, tendo sido classificados, pura e simplesmente, normais.

Do Sul do País, apesar de se encontrarem em péssimo estado de conservação, as cabeças seguiram para Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da UFBA da Bahia. Lá, tornaram a ser medidas, pesadas e estudadas, na tentativa de se descobrir alguma patologia. Posteriormente, os restos mortais foram expostos no Museu Nina Rodrigues, em Salvador, por mais de três décadas.

Cabeças de Lampião e Maria Bonita na Faculdade de Medicina da Bahia. anos 1960. Foto de Samuel Orisio.

Durante muito tempo, as famílias de Lampião, Corisco e Maria Bonita lutaram para dar um enterro digno aos seus parentes.  O economista Silvio Bulhões, em especial, filho de Corisco e Dadá, empreendeu muitos esforços para dar um sepultamento aos restos mortais dos cangaceiros e parar, de vez por todas, essa macabra exibição pública.

Segundo o depoimento do economista, dez dias após o enterro do seu pai violaram a sepultura, exumaram o corpo e, em seguida, cortaram-lhe a cabeça e o braço esquerdo, colocando-os em exposição no Museu Nina Rodrigues. O enterro dos restos mortais dos cangaceiros só ocorreu depois do projeto de lei no. 2867 de 24 maio 1965.

Tal projeto teve origem nos meios universitários de Brasília, em particular nas conferências do poeta Euclides Formiga , e as pressões do povo brasileiro e do clero reforçaram. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969. Os demais integrantes do bando tiveram seu enterro uma semana depois.

Assim, a era do cangaço se encerrou, com a morte de Virgulino.

 

 

FIM 

 


Sírio-libanês fotografou e filmou
Capitão Virgulino e seu bando

Benjamin Abrahão cumprimenta Lampião no sertão sergipano próximo ao rio São Francisco.

Responsável pelo registro iconográfico do cangaço, o sírio-libanês Benjamin Abrahão, que fugiu para o Brasil em 1915 a fim de escapar do alistamento militar na Primeira Guerra Mundial, foi secretário particular de Padre Cícero e graças a ele conseguiu a façanha de filmar e fotografar Lampião, Maria Bonita e os cangaceiros.

Benjamin produziu entre 1936 e 1937 fotos e um filme sobre o rei do cangaço. Revelou dessa forma a estética e a face feminina do cangaço. Abrahão morreria assassinado, em 1938, em episódio atribuído a um crime passional.  

Seu trabalho é uma comprovação visual da marcante estética dos bandoleiros da caatinga e a trouxe para os jornais e a imaginação popular. Logo os personagens passaram a protagonizar lendas do sertão, canções e cordéis populares e, apesar de sua violência, Lampião tornou-se para o povo da época uma espécie de herói dos oprimidos.  Virou mito e lenda.




Um artista que pinta a história

Maria Bonita em preto e branco de Benjamin Abrahão e Maria Bonita colorizada pelo talento de Rubens Antonio. As imagens colorizadas e retificadas aqui apresentadas são um resgate mais próximo do real, como afirma seu autor Rubens Antonio, um artista também mestre em Geologia, Artes Plásticas e História, um historiador natural com pitadas de filosofia. Foi professor da Universidade Estadual da Bahia UNEB e já expôs esse trabalho. Para saber mais  consulte sua página na rede: http://fotoscolorizadas.blogspot.com.br/

 

 

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