Meio Ambiente

A difícil sobrevivência na cobiçada Ilha de Boipeba

O maior perigo é o capital selvagem. O turismo começou a roer parte da ilha. Tudo sobe de preço. Os nativos padecem diante da carestia. Pescador larga a rede para ser pedreiro na construção civil, única chance de ganho disponível.


A ilha sofre um ataque de anarquia imobiliária. Poderosos empreendedores investem pesado. Somente um dos empreendimentos imobiliários vai ocupar 20% da ilha. Eles estão chegando e tomando conta do espaço, ameaçando a beleza quase intocada de uma ilha tropical, onde, por enquanto, ainda se caminha pelas suas longas praias desertas. Até quando?


Construção civil invade ilha, considerada uma das mais belas do mundo.

Perigos ameaçam Boipeba. O turismo começou a roer parte da ilha. Na Velha Boipeba e em Morerê, por exemplo, quase não se vê mais pescadores. Eles se converteram em pedreiros – ofício mais remunerado e menos arriscado – para satisfazer uma demanda cada vez maior. O peixe de sua moqueca virá com certeza já congelado de Valença.

Como de costume, a prefeitura de Cairu não elaborou um planejamento urbanístico capaz de manter uma certa identidade aos vilarejos. Boipeba corre o mesmo perigo de favelização que Morro de São Paulo. Um dos monumentos mais agressivos da Velha Boipeba é o templo da IURD cuja fachada foi revestida de porcelanato cinza. Oficializando o péssimo gosto de Jesus. A prefeitura de Cairu não tendo um gosto mais apurado que o messias, podemos antever o primeiro imóvel de vários andares para breve. A ilha padece de anarquia imobiliária.

Os preços praticados neste pequeno paraíso talvez sejam uma forma de evitar o excesso de invasores. Por causa do transporte, o botijão de gás pode ter seu preço dobrado. Um abacaxi, R$3,00 em Salvador, lá custa R$6,00. Alugou uma casa? Uma cozinheira cobrará R$100,00 para quatro horas de serviço. Não havendo transportes públicos, o visitante deverá se contentar com desconfortáveis quadriciclos ou tratores. A preço mais para limusine que para Uber.


Tem gente hospitaleira, atenta e forte

Comunidade preocupada com o que pode acontecer. Mas vai à luta. Fotos de Dimitri Ganzelevich.

Têm compensações. Os forasteiros, com frequência hostilizados na capital, em Boipeba são acolhidos com a maior gentileza. Afinal, eles trazem trabalho e dinamizam o comércio. E não só. Fala-se de um casal de paulistas que 30 anos atrás comprou muita terra e revende unicamente aos nativos a preços bem camaradas.

Grupos se organizam. Um se preocupa em proteger os animais. Outro, composto por comerciantes e donos de pousadas, paga, de dezembro a março, uma equipe para recolher das praias o lixo proveniente dos cargueiros e até de Salvador, empurrado pelas marés. Pena os poderes públicos não terem a mesma preocupação. Enfim um grupo cultural cuja sede é Monte Alegre um antigo quilombo. Lá, todo domingo rola samba de roda, além da capoeira e a reisada do dia 3 de janeiro.  Não pretendo listar as inúmeras pousadas da ilha, mas sou obrigado a mencionar três magníficos empreendimentos: Pousada Céu de Boipeba, Pousada Mangabeira e Alizée Morerê. As três têm em comum de estarem localizadas no topo dos morros, todas com vistas espetaculares.


Perigo é a grana que destrói coisas belas

O que a natureza deu está difícil de preservar. Poderosos chegam comprando tudo.

O maior perigo ainda é o capital selvagem. Os dois maiores proprietários – o ex-prefeito de Valença e o industrial italiano Perini – por enquanto não parecem muito empenhados em mudar a cara da ilha. Mas a pacata aldeia de Cova da Onça, muito além de Morerê, vive dias de angústia sob ameaça de um gigantesco desenvolvimento imobiliário, numa Área de Proteção Ambiental, sob o ameno título de Mangaba Cultivo de Coco Ltda dos parceiros Marcelo Odebrecht, Armínio Fraga etc.

O megaempreendimento vai ocupar 20% da Ilha de Boipeba e prevê a construção de casas de veraneio, pousadas e campos. São 69 lotes para residência fixa ou veraneio, condomínio com 32 casas, três pousadas, aeroporto, um pier para 153 embarcações, campo de golfe de 18 buracos, além de parques de lazer, estradas e infraestrutura de água e telefonia.

Como, por enquanto, parte das cabeças está dormindo em maus lençóis, não existe perigo iminente. Mas convêm ficar com um olho bem aberto, porque uma pista de aterrissagem já foi feita em fim de 2016. A mata nativa que se f… dane.
 


Aldeia Cova da Onça ameaçada pela
Mangaba Cultivo de Coco Ltda,

uma empresa altamente suspeita.
Veja só quem são os seus donos

 

Tranquilidade da Cova da Onça ameaçada por megaempreendimento imobiliário. Autoridades se omitem.

Reparem que o grupo é poderosíssimo, atenção sobretudo para os sobrenomes, a maioria bem conhecida. São sócios da Mangaba Cultivo de Coco Ltda – MCC, conforme Certidão Simplificada emitida pela JUCEB em 17/07/2014 (doc. anexo):

1. Marcelo Pradez De Faria Stallone (Administrador);

2. José Roberto Marinho;

3. Armínio Fraga (LLC);

4. Filadélfia Empreendimentos Imobiliários e Participações Ltda;

5. Artur Baer Bahia;

6. Sonoio Participações Ltda.

A Mangaba Cultivo de Coco Ltda é a empreendedora do gigantesco aparato imobiliário que estão tocando no lugar, o Empreendimento Turístico Imobiliário Fazenda Ponta dos Castelhanos. O megaempreendimento vai ocupar 20% da Ilha de Boipeba.  São compradores da Fazenda Ponta dos Castelhanos, conforme a Certidão de Escritura Pública de Compra e Venda do Cartório de Tabelionato de Notas da Comarca de Taperoá/BA (Livro nº 94, fls. 069, nº de ordem 3.717):

1. Clóvis Eduardo Álvares de Azevedo Macedo;

2. José Roberto Marinho;

3. Marcelo Pradez de Faria Stallone;

4. Filadélfia Empreendimentos Imobiliários e Participações Ltda;

5. Arthur Bahia Baer.

Agora, reparem nas ligações estreitamente familiares dos poderosos investidores brasileiros. O ex-ministro Armínio Fraga é sócio da Fraga LLC, que é sócia da empreendedora. Artur Baer Bahia é ex-cunhado de Armínio, quem, segundo conversas informais, atrai ele para estes empreendimentos, pois a irmã de Armínio é falecida e os dois sobrinhos são o orgulho dele, mais do que o próprio filho, é o que dizem. A ponte com a Odebrecht é indireta, mas eles estão juntos nos investimentos em outros empreendimentos do tipo no Baixo-Sul da Bahia.

É possível conferir aqui: ODEBRECHT informa sociedade com a GÁVEA INVESTIMENTOS) (fundada em 2003 por Armínio Fraga.

Este final se semana haveria uma audiência pública importante em Cova da Onça, com a presença do empreendedor e todos os órgãos responsáveis pelo licenciamento. Seria para definir a situação.  A audiência foi injustificadamente suspensa. A comunidade tinha conseguido organizar-se e tudo mais. Em segredo, uma das autoridades públicas responsáveis pelo caso, disse que vereadores “comprados” de Cairú reuniram-se e pediram a suspensão, porque pretendem usar de inúmeros artifícios (deputados, artistas, festa, etc) para fazer uma verdadeira campanha pró- empreendimento, de maneira que, na próxima data de audiência, o cenário seja outro.

 


Dimitri Ganzelevitch,
cronista e fotógrafo

 

 

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3 thoughts on “A difícil sobrevivência na cobiçada Ilha de Boipeba”

  1. Sou de Salvador-Bahia!!! Soterapolitano Bahiano da Simplicidade!!! Ja Trabalhei para Muitas Empresas do Ramo da Construção Civil…Me Abriu Oportunidades de Conhecimento Viagens e Profissoes!!! Gosto de Pescar por Hobby!!! Em Relação a Politica…o Proprio Povo e Conivente!!! Trocam suas Oportunidades Casas e Terrenos Por Grana!!! POLITICAGEM PURA!!!

    Bom e Viver!!!

  2. Eu sinto uma tristeza muito grande e ao mesmo tempo uma revolta porque essas desgraças vem de longe para querer tomar o que é nosso. Essa ilha é uma paz para quem buscar um refúgio nas coisas naturais da vida, e um dia desses passamos pelo mesmo, onde a Empresa braskem queria tomar uma praia que temos aqui e construi um terminal para navios que carregam produtos químicos perigosos, um grande risco para o meio ambiente, o que mais me impressiona são os políticos que se calam diante de uma situação como essa; Olha, vou ser sincero a vcs, não sei se é o mesmo caso daqui, mas o que vi aqui foi que rolou grana por debaixo dos panos, vou logo ser sincero, políticos é raça miserável que não governam para o povo, mas governam para si, eles compram votos para estarem em lugares privilegiados e ganhar às custas do povo. Lutem por essa ilha amigos, esse local é um paraíso e não pode se acabar, se possível for vai com mão forte e arranca esses trastes daí.

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