Meio Ambiente

Agonia do Rio Jaguaribe

Interesse de empresas é mais forte que o Governo, a Prefeitura e o meio ambiente

Na semana em que caiu a liminar concedida pela Justiça Federal, para a suspensão da obra de canalização do rio Jaguaribe, Outra Bahia revela quem vai se beneficiar com o dinheiro público investido para “acabar com as enchentes” em Patamares.

Há um personagem oculto na discussão sobre as obras que o Governo do Estado e a Prefeitura de Salvador estão fazendo na área de rio Jaguaribe, em Patamares, e que envolvem os rios Passa Vaca, onde existe um manguezal com uma espécie de crustáceo – o guaiamum –  que está na lista de ameaça de extinção; o rio Trobogy e o Mangabeira: ninguém fala desse personagem oculto, o interesse das grandes empresas proprietárias daquelas terras.

Os tapumes escondem a ação nefasta
A vegetação morre lenta e gradualmente


Já ocorreram muitos debates e polêmicas sobre essa questão que envolveram os empreendimentos do Parque Tecnológico na Paralela; os condomínios Greenville, em Patamares; o
condomínio Le Parc; o prédio da Ferreira Costa, e o Loteamento Parque da Biribeira,  o Alphaville I,  todos nessa  mesma área.

Afinal, aquelas terras onde há uma significativa área remanescente de Mata Atlântica; o último manguezal de área urbana de Salvador; uma das maiores bacias hidrográficas da cidade, a bacia do Jaguaribe; pertencem ao município de Salvador? Ao Estado da Bahia? Não, pertencem a essas empresas e empresários, ou seja, à iniciativa privada.

E quais são essas empresas e empresários que acabam por se beneficiar e ter muitos lucros com as obras que estão sendo realizadas, ao preço de devastar o ambiente natural?

Uma delas é a poderosa PDG e a outra é a Patrimonial Saraíba, seguramente ainda mais potente e importante, dona de muitos milhões de metros quadrados entre as quatro grandes avenidas que formam o polígono mais valioso da especulação imobiliária da capital baiana: Avenida Paralela, Avenida Pinto de Aguiar, Avenida Otávio Mangabeira (a orla) e Avenida Dorival Caymmi.

Vista aérea revela ação das grandes empresas, que já desmataram mais da metade da mata e ameaçam a vida do rio e meio ambiente.

A Saraíba já foi motivo de muita polêmica na Câmara de Vereadores, com seus projetos desenvolvidos na área, além de já ter sido alvo de denúncias na imprensa, chegando a acionar judicialmente um jornalista, Aguirre Talento, do jornal A Tarde, que chegou a ser condenado à prisão por críticas que foram consideradas acusações pela empresa.

A discussão sobre a relação entre as obras que estão sendo realizadas pela Prefeitura e pelo Governo do Estado, passa, também, pela implantação de três empreendimentos agrupados sob a sigla Greenville: o Lummo; o Atmos e o Platno, construídos pela PDG que, além deles, tem outros empreendimentos na região de Patamares.


Concreto. Um velho inimigo

Carl von Hausenchild

O arquiteto Carl von Hausenchild, um dos coordenadores técnicos do movimento “Participa Salvador”, que faz parte do grupo que luta contra as obras do rio Jaguaribe, destaca que a construção do Greenville implicou na implantação de uma fábrica de concreto na área da bacia do Rio Passa Vaca. Ele mostra fotos de satélite da área em 2005 (antes) e 2016 (depois) da concreteira.

Carl reclama que não foi tornado público um estudo do impacto do resíduo dessa concreteira e fábrica de pré-moldados no rio Passa Vaca e no manguezal que existe em seu estuário, lembrando que o Parque do Manguezal foi instituído pelo decreto municipal 19.752 de 13/07/2009 e que o manguezal é uma APP, área de proteção permanente. Portanto, protegido por legislação federal. Isso não foi levado em conta.


O que resta do manguezal ?

O diretor da FAPEX, Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão, da UFBA, Antonio Fernando Queiroz, especialista em Geoquímica de Manguezais, com doutorado em Geoquímica Ambiental pela Universidade Louis Pasteur de Estrasburgo – França (1992), sugere que seja feita uma avaliação técnica do Manguezal do Rio Passa Vaca pelos institutos de Biologia e Geociências da UFBA, para determinar como está a qualidade ambiental do manguezal hoje, após todos os impactos causados pelos diversos empreendimentos ao longo dessa bacia hidrográfica.

Fernando explica que é importante saber quais espécies sobreviveram a esses impactos, tanto na fauna como na flora. A partir dessa avaliação técnica o diretor da FAPEX propõe que seja desenvolvido um projeto de recuperação de área degradada para a bacia hidrográfica e para o manguezal, “uma vez que é o último remanescente de manguezal de área urbana de Salvador, se acabar, acabou”, sentencia.

Antonio Fernando

 


Salvador perdeu a relação
de valor com os rios

Pedro Rocha

O biológo Pedro Luís Bernardo da Rocha, do Programa de Pós-graduação em Ecologia e Biomonitoramento, do Instituto de Biologia da UFBA, destaca que todos esses rios onde estão sendo realizadas tais obras, estão muito poluídos, lamentando que a cidade de Salvador tenha perdido a relação de valor (no sentido ambiental e ecológico) com os rios. ”Quando um rio é coberto, ninguém fica chateado, não é levado em conta que a cidade perde um pouco sua relação com a natureza”, explica.

Ressalta que Salvador hoje tem poucas áreas urbanas com maior conservação da biodiversidade, “o que diminui a qualidade de vida da população”, explica. Cita o exemplo da avenida Paralela, onde os diversos empreendimentos foram suprimindo as áreas verdes. O importante para o biólogo Pedro Rocha é pensar na preservação da biodiversidade e não só em espécies em particular, mesmo que elas estejam ameaçadas de extinção.

 


Outra Bahia quer saber:  

As empresas proprietárias das terras e dos empreendimentos imobiliários estão preocupadas com a biodiversidade, o meio ambiente e as espécies ameaçadas de extinção? Parece que não.

 

 

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  • Outras Matérias
Caco Caetano Autor
Jornalista, Doutorando em Geografia – Unicamp/SP Professor Assistente – UNEB

2 thoughts on “Interesse de empresas é mais forte que o Governo, a Prefeitura e o meio ambiente”

Cometários Encerrados.

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