Política

O dilema de Rui Costa:
entre Maquiavel e Zé Dirceu

O que é, para o governador, afinal, o bem do Estado cujo povo ele quer seguir governando?  

Friso que a figura de linguagem do título não insinua identidade entre os personagens. Naturalmente o governador não tem condições políticas e pessoais de agir como pensava o genial florentino durante seu ostracismo político, nem como hoje age, apesar de sua situação penal, o pragmático líder do petismo.

A metáfora quer dizer é que o dilema do governador, ao pensar e agir em 2018, será sobre o que tentará conservar: o poder que exerce no Estado ou a influência política e administrativa do seu partido. Pelo primeiro caminho o objetivo poderá até ser a grandeza do Estado (como queria Maquiavel para sua suposta Itália) e a estratégia para alcançá-lo precisa hoje respeitar a lógica eleitoral. Pelo segundo caminho o objetivo tende a ser (como supõe Zé Dirceu para o seu suposto Brasil) a supremacia do partido, para a qual a estratégia, mesmo passando por eleições, inclui táticas, digamos – para sermos elegantes -, extra eleitorais.

São caminhos difíceis de conciliar, como certamente deseja o governador. Quadro histórico do partido e candidato à reeleição,é normal que seu horizonte de desejo seja a conciliação e não o antagonismo entre os dois cursos de ação. Mas a política é das atividades humanas que melhor demonstram a não convergência dos planos do desejo e da realidade. Ao se fazer projeções sobre a política baiana a imperiosa distinção dos planos vem de dois fatores: consequências das eleições municipais de 2016 e incertezas da política nacional.

A experiência mostra que resultado de eleições para prefeitos não prediz o da que se dará para governador – daí que as derrotas do PT, Bahia afora, em 2016, não são, em si, empecilho à reeleição de Rui. Mas mostra também que prefeitos contam muito na eleição de deputados. O mapa partidário das prefeituras baianas é péssima notícia para pretensões do PT ao Legislativo, estadual e nacional. Por isso o PT e seus candidatos pressionam o governo estadual a ser fonte compensatória de apoio eleitoral. Estão na contramão da lógica que sugere ao governador prestigiar, na montagem da chapa e na distribuição de recursos eleitorais, partidos da base vitoriosos em 2016, como o PSD e o PP, seus deputados e prefeitos. Respeitar essa lógica é mandamento primário a quem precisa, como governador, evitar hostilidade de uma  AL presidida por um liderado de Otto Alencar e, como candidato, do tempo de propaganda eleitoral de partidos aliados.

 


No pluralismo moderno não há ideia única
de bem comum

Nesse ponto entra em cena o segundo fator. No interesse de sua própria reeleição Rui precisará montar palanque politicamente consistente para o candidato petista, seja ele Lula e mais ainda se não for, pois sendo outro o candidato será mais difícil quebrar prevenções antipetistas de prefeitos e, em consequência, garantir fidelidade de muitos candidatos a deputado, ainda que o candidato presidencial pudesse ser Jaques Wagner.

Outra incerteza do plano nacional decorre da importância, para a reeleição de Rui, de um governo federal politicamente fraco, como até aqui é o atual. Havendo alteração, mesmo moderada, nessa situação, algum poder de persuasão política dos adversários sobre candidatos da base somar-se-á aos recursos federais liberados aos prefeitos. Esse quadro incerto recomenda ao governador seguir num discurso de oposição ao governo federal mas sem correr tanto risco de receber um abraço de afogado de um PT radical e sem Lula.

O bom senso pende para os conselhos de Maquiavel, não para os de Zé Dirceu. A lógica republicana do florentino é conservar o poder para a grandeza do Estado e o bem do povo. No pluralismo moderno não há ideia única de bem comum. Um partido como o PT pode expressar uma delas, mas a variedade tem limite. Por exemplo, o governador criará problemas além dos que a realidade já lhe põe se, para atender a uma narrativa do seu grupo de origem, ficar a caçar fantasmas carlistas, como se fosse matar “o velhote inimigo que morreu ontem”.

É bom não esquecer que ele tem hoje ao seu lado notórios ex-carlistas de carteirinha que aderiram à ordem petista sem jamais fazerem um mea-culpa como os que petistas, no passado, exigiam de convertidos dotados de sangue impuro. Já a propaganda de que o governo Rui Costa mudou Salvador – depois desse governo ter “denunciado”, oficiosamente, que o prefeito da capital teria poder tamanho G para sabotar o Estado – pode afetar mentes e ouvidos atentos no interior, onde estão 80% do eleitores baianos. Parte deles pode indagar: o que é, para Rui, afinal, o bem do Estado cujo povo ele quer seguir governando? 

 

Cientista político, professor da Universidade Federal da Bahia

 

 

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