Segurança

A matança de jovens
pretos e pobres

Jovem, negro, pobre e sem escola. Este é o perfil dos homicídios no país. De cada 100 pessoas mortas, 71 são negras. Mais da metade da juventude perdida: em 2015, foram 59.080 mortos sendo 31.264 com idade entre 15 e 29 anos.  A Bahia tem quatro cidades entre as 10 mais violentas do Brasil. Um genocídio de raça, sem exagero.


Eleonora Ramos

 

Jovem, negro e pobre, sem escola. Este é o perfil dos homicídios no país. Os dados são do Mapa da Violência-2017, divulgados em junho pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), considerando os anos de 2005 a 2015.  O número de homicídios no Brasil subiu 22,7% no período.  São quase 60 mil casos por ano.

O homicídio no Brasil tem cor e ela é negra. De cada 100 pessoas que sofrem homicídio, 71 são negras. Apenas em um ano (2015), foram 59.080 homicídios sendo 31.264 vítimas entre 15 e 29 anos.  As informações do Atlas indicam que os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados, em relação a outras raças.

Dez por cento dos homicídios do planeta ocorrem no Brasil. De 2011 a 2015, matou-se mais aqui que, no mesmo período, na Guerra da Síria: 278.839 contra 256.124 mortes. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

O sociólogo e diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos (Cebela), Julio Jacobo Waiselfisz, afirma que as principais causas sinalizadas no estudo passam pela impunidade, a cultura da violência e a segurança institucional. Não se apura nem se pune homicídio no país. A investigação é frágil e a justiça tarda demais, quando acontece. Apenas 8% dos crimes são elucidados e inacreditáveis 3% dos homicidas são condenados.

Com um crescimento de 7% ao ano, a população carcerária no país já atinge 607.731 presos. É a quarta maior do mundo. Cerca de 56% dos encarcerados são jovens entre 18 e 29 anos. Hoje o Brasil tem 300 presos por cada 100 mil habitantes.

A cultura da violência explode em balas perdidas porque inexiste a Educação, muito menos perspectivas de futuro, de trabalho, de saúde, de bem estar, de felicidade, entre tantos motivos. A segurança pública é equivocada ou inexistente.


A expansão
dos crimes
para o interior

A pesquisa também aponta uma difusão vertiginosa dos homicídios das capitais para o interior. A Bahia é um (mal) exemplo.

Entre os 10 municípios mais violentos do país, oito estão no Nordeste e quatro são baianos. Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, é o segundo colocad

o no ranking da desgraceira, ficou atrás apenas da cidade de Altamira (PA), a primeira em sangue no país.

Além de Lauro de Freitas, a Bahia ainda tem mais oito cidades no ranking dos 30 municípios mais violentos: Simões Filho (5º lugar), Teixeira de Freitas (7º), Porto Seguro (9º), Barreiras (14º), Camaçari (15º), Alagoinhas (18º), Eunápolis (19º) e Feira de Santana (30º).

Em nota sobre o Atlas, a Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-BA) contesta a metodologia utilizada pelo Ipea para a contagem das mortes nos estados brasileiros e que os dados divulgados “podem ser incoerentes”. E conclui: “Pesquisas como a publicada, em nada vão colaborar para entender a real situação dos municípios e a dinâmica da violência no país’, diz o comunicado.


Por que a Bahia
mata tantos negros ?

Os números são impressionantes. Por que a Bahia, estado símbolo da negritude brasileira, mata tantos negros?

O alto índice de homicídios de adolescentes e jovens negros é, sim, impressionante, mas, para a maioria, deixa de ser assunto em, no máximo, 24 horas. Do anúncio de tantas mortes, restam palestras e debates por uns dias e dissertações acadêmicas a cada novo estudo publicado.

Somos uma sociedade forjada em 400 anos de escravidão, dos quais nos separam escassos 120 anos.  As senzalas e casas grandes não são só um lugar comum em tantos discursos, mas um estigma que insiste em habitar nosso inconsciente.

O fato é que, em pleno século XXI, os negros passam direto de suspeitos a condenados. E a execução é sumária.  Como se matar negros e jovens impactasse a violência, suas causas e efeitos. Sem contar a outra morte, o confinamento nos presídios brasileiros.   Mais de 61% da população carcerária é negra.

Uma guerra ao som de pagode e trio elétrico, uma guerra todo dia, no meio da qual se trabalha, se espera o carnaval, se joga muita bola, perde-se horas nos engarrafamentos e se assiste televisão, enquanto eles morrem, homens jovens, adolescentes,  até crianças, morrem por qualquer coisa ou por nada, por acaso, por engano, por hábito.

 


Gestão desastrosa
no governo Wagner

No caso da Bahia, o vertiginoso crescimento de extermínio de jovens pobres, a maioria negros, moradores dos bolsões urbanos de miséria, acompanha a desastrosa gestão da segurança pública nos últimos anos.  Em 2012, segundo o Anuário de Segurança Pública, São Paulo, com 42 milhões de habitantes, registrou 5.180 mortes violentas e a Bahia, com 15 milhões, 5.764, marcando uma das mais altas taxas do país: 40,7.

Em 2007, no primeiro ano de mandato do governador Jacques Wagner, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública, foram registrados, somente em Salvador, 1.337 assassinatos, um aumento de mais de 38% em um ano. Aumento também dos crimes de furto e roubo e 12 pessoas mortas pela polícia em um mês. Oito sem antecedentes. O governador demitiu o secretário.

Mas nos anos seguintes, o desacerto continuou. O estado tinha 1.590 homicídios e ocupava o 15° lugar em 2004. Em 2014, o estado registrou 4.441 mortes por arma de fogo, e subiu para o 8° lugar na lista.

Não houve viatura nova que desse jeito. Até que em 2012, a primeira greve da PM acarretou aumento de ocorrências violentas e arrastões, levando o governador Jacques Wagner a pedir a presença da Força Nacional. A segunda, em 2014, ainda mais longa e acirrada, tumultuou a vida de muitas cidades e, claro, provocou o aumento do número de mortes violentas.


Rui divide responsabilidade
com famílias

Fazendo em janeiro último um balanço de 2016, o governador Rui Costa surpreendeu ao dividir a responsabilidade pela Segurança Pública do Estado com as famílias baianas. Sim, as famílias deveriam cuidar para que suas crianças não se tornassem bandidos e entrassem para o mundo do crime.  “Segurança pública é obrigação do Estado, mas, o Estado tem limitações. A participação da família na educação das crianças é fundamental no combate à violência. Eu faço um apelo às famílias: não vamos perder nossas crianças para o mundo do crime”. Só assim ficamos sabendo que as famílias e seus filhos, a que se referiu o governador não são vítimas da violência, mas potenciais autores. A menos que atendam ao apelo do governador.


A escola é reprodutora
da desigualdade

Recentemente, o pesquisador Ricardo Paes de Barros, economista e professor referência no estudo da pobreza e educação, reconhecido internacionalmente, afirmou que “as escolas no Brasil não oferecem aos alunos de baixa renda oportunidades de ascensão social. Ao contrário, elas reforçam as diferenças educacionais herdadas do ambiente familiar”. Segundo o pesquisador, “a escola brasileira é loucamente reprodutora de desigualdade”.

Além da desigualdade atávica de oportunidades, os negros estão em sua maioria nas periferias das grandes cidades, obrigados a conviver com a ausência de equipamentos sociais e politicas públicas em geral, em comunidades dominadas pelo tráfico e criminalidade.

Daniel Cerqueira, coordenador da pesquisa do Atlas da Violência, estudo do IPEA- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que a naturalização dos homicídios de negros se dá por processos históricos e econômicos de desigualdade no país, “que fazem com que a sociedade não se identifique com a parcela que mais sofre com esses assassinatos”.

Já Julio Jacob Waiselfisz diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos (Cebela), autor do Mapa da Violência, cita um fator importante para o incremento da violência letal contra os negros, que chama de inversão de mentalidade entre quem é a vitima e quem é o culpado, um mecanismo perverso que incentiva a intolerância contra  grupos mais vulneráveis, que deveriam ter proteção do Estado. Vítimas que se tornam culpadas, sem acesso à Justiça.

De acordo com Waiselfisz, um processo de privatização da segurança teve inicio no Brasil nos últimos 20 anos, com a terceirização de serviços e o surgimento de empresas especializadas. “Segurança pública também é política, o que reforça que haja mais atuação em áreas com população de renda mais alta e majoritariamente branca do que em favelas. Assim, os abastados têm as duas, segurança pública e privada, e as favelas, nenhuma”, explicou Waiselfisz.


Escalada das mortes
aumentou com o PT

  1. Ainda governo Fernando Henrique, oitavo ano na presidência. Comecemos daí a observação do que já se pode chamar de genocídio, a matança indiscriminada em todo o país de adolescentes e jovens negros como ocorreu na Bahia, incluindo Salvador, a cidade mais negra do mundo fora da África.

Em 2002 foram mortos 924 adolescentes e jovens negros com menos de 25 anos na Bahia. Os jovens brancos foram 75. Um escândalo. O movimento negro efervesceu. Culpava-se o desgastado final de governo. Sonhava-se com um país mais igual, com os excluídos no poder. O governo mudou.

Dez anos depois, em 2012, foram 3.252 mortes. Um aumento de mais de 200%, durante os governos do PT, de Lula e Dilma, que em 2014 atingiria mais que o dobro de homicídios de jovens negros em uma década.

Em 2014, não só a Bahia, mas o Nordeste aumentou as taxas de extermínio de adolescentes e jovens negros. No Maranhão e Rio Grande do Norte elas quase triplicaram.

Em números absolutos, entre 2002 e 2010, foram contabilizados quase 468 mil homicídios no Brasil, 308 mil de negros. Nesses mesmos oito anos, foram mais de 231 mil homicídios de jovens, dos quais mais de 122 mil eram negros, 53,1%. São dois estádios de futebol lotados de jovens negros. Mais de mil todos os meses.

COMO MORREM OS JOVENS

A execução de Regi


Zedejesusbarreto

Foram dois balaços. Nas costas, execução.

A versão oficial é que Reginaldo, 21 anos, já com duas entradas por tráfico e suspeita de assassinato, teria rompido um cerco policial, uma blitz armada na madrugada de sábado bem na entrada do bairro do Caji, onde morava, trepado numa moto roubada, sem capacete, sem documentos, a toda. Levava na mochila uma carteira de cédulas com 60 reais, documentos de outra pessoa, um celular e um trezoitão com três balas, intactas.

Teria reagido à abordagem, não se sabe como, já que nem deu pra apanhar a arma, tentando escapar do flagra.

Pele escura, corpo magro, tênis novo, bermuda de grife, camiseta escura, o corpo de Regi foi reconhecido pela mãe e vizinhos logo que o sol nasceu, espichado na beira do asfalto, coberto com um pano imundo.  Inconsolável, dona Giselda, a mãe, jurava que o filho estava limpo, que a moto fora emprestada por um amigo e que ele trabalhava numa oficina acolá, de onde trazia o trocado que ajudava a pagar as contas do barraco e no de comer dela e de mais um casal de caçulas, de 9 e 10 anos, filhos de outro homem com quem ficava às vezes.

Do pai, segundo ela, a lembrança de Regi era de quando era criança e ‘o traste sumiu pra sempre’. Nas dificuldades, Reginaldo mal aprendeu a ler e garatujar o nome nas escolas sem aula, sem professor, sem merenda todo dia e sem atrativos. ‘Ele gostava era de bola, mas nunca deu pra jogador’, conta entre soluços.

Em más companhias, querendo se enturmar, namorar e ter suas coisinhas, o menino Regi caiu na buraqueira e ficou nas mãos dos comandos da Facção que controla o bairro, fazendo avião, vigiando postos e, já empoderado,  ganhando a confiança dos ‘chefes’, cumprindo tarefas como furtar celulares, motos, roubar carros sob encomenda e participar de alguns assaltos, para  choro e desespero da mãe. Sempre jurava que iria se sair dessa e fazer trabalho limpo, como      então dizia estar nessa oficina de um amigo, lá adiante, no Mangueiral.

Dona Giselda sabia que o filho estava jurado. Não tinha 15 dias que a polícia bateu e quase arromba a porta do barraco dela, numa madrugada, a procura dele. Tinha saído, pra um paredão com a namorada, mas restou o recado macabro: ‘Diga a ele que se cuide, tamos de olho no que ele anda aprontando e pode se dar mal’.  A preocupação, o coração apertado da mãe ele tirou de letra: “que nada mãe, tô de boa, já me saí !”

Não tinha se saído ou já era tarde. O jovem brincalhão Reginaldo, que torcia pelo Bahia, não fumava nem bebia goró, só umas piriguetes vez em quando, pegador e parceiro dos babas de fim de semana, já era.

Virou número. Mais um preto, pobre e da periferia que sobrou, foi engordar a estatística dos assassinatos de fim de semana, às dezenas na Região Metropolitana de Salvador.

 

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