Almanaque

João Sem Medo,
João sem frescuras

João Saldanha, 100 anos: o mais carioca dos gauchos 

Jornalista, radialista, comentarista esportivo e treinador de futebol. Simples, direto, humano, culto e chegado numa polêmica. Boêmio, fumante inveterado, divertido, era um grande contador de ‘causos’, corajoso e leal com os amigos e com aquilo em que acreditava. Intolerante com a canalhice e a estupidez humana. João Saldanha era assim.

 

Sua vida ficou marcada pela demissão como treinador da seleção brasileira às vésperas da Copa de 1970, oficialmente por não acatar interferência do regime militar – à época o presidente da República era o general gaúcho Garrastazu Médici – na escalação da equipe. Mas havia por baixo do pano outras discrepâncias maiores. Assumira o cargo num momento de crise profunda e descrença no futebol brasileiro, após o fiasco de 1966 na Copa da Inglaterra. Convocou onze ‘feras’, escolheu o que tínhamos de melhor, deu-lhes confiança e venceu as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970/México com 100% de aproveitamento.

De temperamento quente, desgastado com a mídia e sem admitir interferências em seu trabalho, mesmo que fossem pitacos do temido general de plantão, terminou demitido pelo conluio subserviente do então presidente da CBD, João Havelange, com os poderosos de Brasília. Imagina ! Um comunista confesso, um ‘comunista de carteirinha’ à frente do escrete nacional, o verde-amarelismo tupiniquim no auge, com o regime autoritário construindo o tal ‘milagre econômico’, tempos bicudos do ‘Ame-o ou Deixe-o’…  O rebelde Saldanha peitou.

Pela sua coragem, nesses e outros eventos da vida, ganhou para sempre o epíteto de  “João Sem-Medo”.


Cariucho ou gauchoca?

João Alves Jobim Saldanha nasceu em Alegrete, no dia 3 de julho de 1917. Mas adotou o Rio de Janeiro e o estilo de vida carioca desde a adolescência, quando mudou-se para a ‘Cidade Maravilhosa’, já apaixonado por futebol. Lá enturmou-se com o que havia de melhor na então Capital do País, o agitado centro cultural do Brasil.

Sua paixão pelo mundo da bola não o limitou, muito pelo contrário, abriu-lhe os caminhos das grandes amizades, do rádio, do microfone, do mundo dos livros, da intelectualidade vigente, da cultura que vicejava  sob as bênçãos do Redentor. Outros tempos !

Saldanha nunca se enclausurou na chamada limítrofe ‘quatro linhas’. Estudou, tornou-se um jovem culto, politizado e combativo. Nos gramados, não passou de um  esforçado e promissor atleta que deu suas caneladas nas categorias de base do Botafogo. Quando percebeu que não seria o craque que imaginava, desistiu da carreira. Tinha outros horizontes pela frente. Mas nunca se afastou da órbita de encantamento da sua única divindade, a deusa bola.

Em 1957 foi treinador do seu Botafogo, paixão de vida, e sagrou-se Campeão carioca à frente de uma equipe que tinha Manga, Nilton Santos, Didi, Zagalo, Paulinho Valentim e um certo Mané Garrincha, endiabrado, voando, no auge. Na final daquele ano, o clube da Estrela Solitária surpreendeu o Brasil inteiro aplicando uma goleada de 6 x 1 no fantástico e quase imbatível time do Fluminense – de Castilho, Pinheiro, Altair, Telê, Léo Briglia, Valdo, Escurinho… -, num jogo inesquecível.


Palavra certeira

Dizia que teria sido o desencanto como boleiro profissional que o levou a outra grande e futura paixão: o jornalismo. Dedicou-se ao jornalismo esportivo, área que abrigava Mário Filho, Nelson Rodrigues, Ari Barroso, Armando Nogueira… entre tantas outras celebridades do microfone, da locução esportiva que marcaram época.

Pelo seu estilo sem firulas, cáustico e humorado, sem condescendências, logo se consolidou como um dos principais comentaristas, analistas de futebol do país. Respeitado e louvado assim, até o fim da vida, aqui e lá fora, onde chegasse. Enxergava o jogo com a sabedoria de quem já tinha pisado o gramado, de quem conhecia os vestiários, a linguagem do ‘boleiro’ e sabia decifrar os caminhos da bola, distinguia o craque e apontava o perna de pau, sem muita conversa mole.

Escrevendo, mantinha o mesmo estilo cru e a mesma acidez nos comentários. Tinha posições firmes e, por vezes, intransigentes, questionáveis, como o preconceito com jogadores cabeludos, os mascarados e até os black powers, tão comuns nos anos 1970. Entendia que a cabeleira atrapalhava a visão do atleta e amortecia a bola na hora do cabeceio. Adorava uma polêmica, claro.


Salvador da Pátria

Depois do estrondoso fiasco na Copa do Mundo de 1966, resultado do uso da seleção para a politicagem pelo regime militar implantado em 1964, em fevereiro de 1969 a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atual CBF, surpreendeu o país ao anunciar o já consagrado comentarista João Saldanha como o novo técnico da seleção canarinha.

Mesmo apanhado de surpresa, ele topou de cara. E no mesmo instante disse aos microfone que montaria um “time de feras”, que convocaria os melhores jogadores do país em atividade e escalou seu time, com titulares e reservas, na tampa, para que não houvesse dúvidas e nem se criasse logo um ‘tititi’, como era de costume, todo mundo querendo dar palpite e escalar seus preferidos.

A base da equipe de ‘feras do Saldanha’ era formada por craques das três melhores equipes do país: o Santos de Pelé, Clodoaldo, Edu, Carlos Alberto; o Cruzeiro de Tostão, Piazza e Dirceu Lopes; o Botafogo de Jairzinho, Gerson e Paulo Cesar…  Foram, sob o seu comando, seis vitórias indiscutíveis em seis jogos nas Eliminatórias que carimbaram o passaporte do Brasil para a Copa do Tri, resgatando o orgulho e a fé dos torcedores pela seleção.



Abaixo a ditadura

A despeito da popularidade como treinador, Saldanha não deixou o sucesso subir pra cabeça, pondo-lhe antolhos. Continuou aberto, lúcido e aceso politicamente. Postou-se claramente contra a ditadura, sobretudo após a ascensão do general conterrâneo Emílio Garrastazu Médici ao poder, quando o regime militar endureceu muito mais ainda a repressão, focando a sanha sobre integrantes do Partido Comunista. No fim de 1969, o assassinato de Carlos Marighella, um amigo de longa data, despertou de vez a ira do combativo João Sem Medo.

Ele teria montado, ou participado da confecção de um dossiê, em que denunciava a existência no Brasil de milhares de presos políticos, centenas de mortos e torturados pela ditadura brasileira. Esse dossiê foi distribuído à imprensa e autoridades internacionais em sua passagem pelo México, na ocasião do sorteio dos grupos da Copa. Era janeiro de 1970.

A partir daí, o governo Médici, usando a subserviência da direção da CBD e de grande parte da mídia esportiva nacional encetou uma campanha, às claras e nos bastidores, para derrubar o João, que não era nada bobo, do cargo.

Os atritos entre o treinador e repórteres passaram a ser constantes, Saldanha respondia com acidez a perguntas tolas e provocativas, brigou feio com o colega Iustrich, um monstro de ignorância e autoritarismo que dirigia a equipe do Atlético Mineiro, e até indispôs-se com ídolos e titulares absolutos de sua equipe, como Gérson e Pelé, colocando-os no banco de reservas em amistosos sem grandes serventias. A imprensa caia de pau nele.

Num desses amistosos, contra o Galo Mineiro, o desengonçado garoto Dario arrebentando a defesa da Seleção com gols e correria, o general presidente Médici – gaúcho, gremista e fanático por futebol, ia pros estádios com radinho de pilha -, então pediu nos microfones para convocar o atacante Dario, o Dadá Maravilha, do Atlético Mineiro.

Saldanha, instigado, não pestanejou: “Ele escala o ministério dele, eu convoco a seleção”. Quanta ousadia! A resposta repercutiu como uma bomba.

Duas semanas depois desse atrevimento em forma de resposta, após reuniões em Brasília de ministros de Estado, diretores da CBD e presidentes (do país e da entidade), João foi demitido da seleção e deu lugar ao ex – atleta campeão do mundo e já então treinador Zagallo, que, assumiu o comando do escrete  ao lado de preparadores físicos e auxiliares com formação militar, espécies de olheiros do regime.

Com uma equipe já arrumada por Saldanha, alguns retoques táticos e convocações para satisfazer os poderosos de plantão, a seleção brasileira sagrou-se brilhantemente, invicta, Tri Campeã do Mundo no México, em junho de 1970, tida como uma das melhores equipes de futebol de todos os tempos ( Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gerson e Rivelino; Jairzinho, Pelé e Tostão). Detalhe: Dario, o ‘Peito de Aço’, o Dadá Maravilha, convocado por Zagallo, foi ao México mas não entrou numa só partida da Copa.


Nódoa ou troféu ?

Tempos depois, regime militar morto, João Havelange revelou que teve mesmo de demitir João Saldanha por imposição de Médici.  “O regime não admitia a possibilidade de um líder oposicionista tão expressivo como o Saldanha voltar do México consagrado e venerado pelo povo”, avalia o jornalista Carlos Ferreira Vilarinho, autor do livro “Quem derrubou João Saldanha”.

Sobre o assunto que marcou sua vida, numa uma entrevista de 1985 ao programa Roda Vida, Saldanha resumiu, bem a seu estilo: “Considero Médici o maior assassino da história do Brasil. Ele nunca tinha visto o Dario jogar. Aquilo foi uma imposição só para forçar a barra. Recusei um convite para jantar com ele em Porto Alegre. Pô, o cara matou amigos meus. Tenho um nome a zelar. Não poderia compactuar com um ser desses”.

Em 1988, ainda sobre essa badalada demissão, escreveu:  “A pressão foi ficando insuportável. Por gente da própria CBD e da ditadura. Era difícil tolerar um cara com longa trajetória no Partido Comunista Brasileiro ganhando força, debaixo da bochecha deles”. Dito.


João sem frescuras

João Saldanha, como todo brasileiro amante do futebol, vibrou pelo tri mundial no México. Continuou a escrever e a falar nos microfones, chegou até a comentarista de tevê, cobrindo copas para canais aberto de grande audiência, reverenciado no mundo inteiro pela sua inteligência, estilo, cabeça, independência. Nunca abdicou do tom crítico e manteve a atividade política e cultural, a militância que ajudaria a derrubar o regime militar que durou 20 anos. A irreverência foi uma marca indelével de seu trabalho.

Como pessoa, era aquela figura amável com os amigos, bem humorada, instigante, educada, querido para muitos, intragável para outros tantos, impaciente com a burrice, intolerante com a estupidez, raivoso com o ‘mau caratismo’, um ótimo papo, sem frescuras.  Largadão, avesso a etiquetas, pouco cuidava de si. Bebia à vontade, curtia a noite conversando com avidez e fumava muito.

Morreu na ativa, aos 73 anos, durante a cobertura da Copa de 1990, na Itália. Deixou um vazio sem fim no coração dos amigos; era capaz de gestos e atitudes cativantes, às vezes surpreendentes para com eles. Deixou um vazio também enorme no jornalismo combativo e na mídia esportiva brasileira.  Exemplo de profissional digno e altivo. Ninguém como ele, jamais. Saldanha era ele, único, sem medo, sem freios na língua. Não era um João qualquer. Era um destemido. Temido e querido.

Saudades, faz muita falta. Sempre fará.

Zedejesusbarreto  

 

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