Ping-Pong

Dom Murilo Krieger

O povo está apreensivo e triste, temeroso e sem esperança. Isso é grave!

Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil diz que é preciso reagir em paz, mas reagir: ” Quem sabe faz a hora não espera acontecer”.


 

O Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, 74 anos, natural de Brusque (SC), também vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é formado em teologia e filosofia, com licenciatura em Letras. Em 1985, o papa João Paulo II o nomeou bispo auxiliar de Florianópolis, foi bispo de Ponta Grossa, arcebispo de Maringá e de Florianópolis e em 25 de março de 2011 tomou posse em Salvador, nomeado pelo Papa Bento XVI. Seu espírito cordial e sincero e suas opiniões o tem feito personagem importante da igreja católica no país bem como um pastor reconhecido e respeitado por sua pregação de fé e paz na Bahia, em dias tão conturbados social e politicamente como os atuais.

Nessa entrevista Dom Murilo fala de temas do cotidiano das pessoas: política, racismo, intolerância religiosa, gênero, aborto, violência, Papa Francisco.  Remete-se ao compositor Geraldo Vandré para dizer que sua canção continua atual para a realidade brasileira: quem sabe faz a hora não espera acontecer!

Diz que é  importante que tudo o que for feito para manifestar a vontade do povo – manifestações públicas, passeatas- seja feito em clima de paz pois a violência gera a violência, que gera a violência….

Critica a intolerância religiosa afirmando que viver é conviver com o diferente, e o indiferente é que nos enriquece. Diz ainda que a desigualdade social e a corrupção destroem o tecido social e geram a miséria e a fome. E, pior: podem se tornar estruturais, com consequências desastrosas para o país e, mais ainda, para as pessoas. Mas mantem a esperança de que o sofrimento atual dos brasileiros, acompanhado de renovadas notícias de corrupção e desemprego, “ nos ajudem a pensar melhor em quem depositar nas próximas eleições a nossa confiança”.

Entrevista concedida a Vander Prata, José de Jesus Barreto e Césio Oliveira. 

 

 


O senhor nasceu em Brusque, Santa Catarina. Como é ser o Arcebispo Primaz do Brasil, numa cidade como Salvador, a mais negra do país?

Esta é a quarta diocese que eu dirijo. Nunca tive problema de me adaptar a nenhum lugar, pois sempre segui um princípio: minha cabeça deve estar onde estão os meus pés.  Amo o povo que o Senhor coloca diante de mim, não importa sua raça ou seu jeito de ser, suas qualidades, costumes ou os desafios que enfrenta. Já disse publicamente, e aqui apenas repito: é muito fácil amar esta terra e, particularmente, este povo, por sua capacidade de acolhida. Quem aqui chega, fica logo à vontade. Sinto-me em casa, desde a noite em que aqui cheguei, quase sete anos atrás.

Consciência Negra. Que visão o senhor tem sobre essa data?

As reportagens que li recentemente sobre esse assunto me fizeram ver e me convencer que nossa sociedade tem ainda um longo caminho a percorrer para superar seus preconceitos. A fé me ensina que cada pessoa – independente de qualquer particularidade – é imagem e semelhança de Deus, e como tal deve ser vista, respeitada e valorizada. A realidade nos mostra que não se superam preconceitos “automaticamente” mas, sim, a partir de um processo educativo. Precisamos insistir muito e sempre que viver é conviver com o diferente, e o diferente nos enriquece. Viver é estabelecer laços respeitosos com todos. Por outro lado, é preciso reconhecer que passos importantes já foram dados nesse campo de superação de preconceitos. A própria reação atual da sociedade, diante de notícias sobre preconceito racial, é uma prova disso.

 


Vandré continua atual: “Quem sabe, faz a hora; não espera
acontecer!” O importante é que tudo seja feito em clima de paz.
A violência gera a violência, que gera a violência…


 

A CNBB posicionou-se criticamente sobre o tormentoso momento político brasileiro, propondo ao povo que se manifeste. Mas, de que forma? Nas urnas, indo para as ruas?  Contra ou a favor de quem, do quê?

O povo tem, hoje, poderes imensos em suas mãos – por exemplo: as redes sociais, que promovem encontros, provocam reações imediatas e globais diante de determinadas notícias, e dão origem a uma série de iniciativas. Prefiro não entrar noutro campo, para não fugir do tema: é grave, porém, quando tais meios são usadas para difamar alguém. Manifestar-se, segundo a proposta da CNBB, significa deixar de ser uma pessoa passiva e ocupar espaços nos partidos políticos e nas Ong´s, nos clubes de serviço e nos diversos ambientes da sociedade. Precisamos superar a mentalidade do tempo das Capitanias Hereditárias, em que toda a responsabilidade era colocada sobre os ombros do Capitão-Mor. Geraldo Vandré continua atual: “Quem sabe, faz a hora; não espera acontecer!” O importante é que tudo o que for feito – também manifestações públicas, passeatas etc. -, seja feito em clima de paz. A violência gera a violência, que gera a violência…

Ao instalar a estátua de Nossa Senhora Aparecida nos Jardins do Vaticano, o Papa Francisco disse que o Brasil atravessa um momento triste. Como o senhor define esse momento?

Percebe-se que o povo está apreensivo e triste, temeroso e sem muita esperança. Isso é grave. Vivemos um daqueles momentos que os gregos chamavam de “momentos de crise”. Lembro que “crise” significa momento de decisão, diante de duas ou mais possibilidades, de dois ou mais caminhos a tomar. Momentos assim não são necessariamente negativos. Foi em momentos de crise (por exemplo: tempos de guerra) que grandes descobertas foram feitas, que iniciativas foram tomadas (por exemplo: a ONU nasceu logo após a 2ª Guerra Mundial), que a humanidade deu passos decisivos em sua autorreconstrução. O que nosso país não pode é perder essa ocasião de buscar novos rumos, a partir, justamente, das experiências negativas que estamos presenciando e vivendo.

 

 


A desigualdade e a corrupção geram a miséria e a fome.
E, pior: podem se tornar estruturais, com consequências
desastrosas para o país e, mais ainda, para as pessoas.


 

Qual o problema que mais abala a Nação: a desigualdade ou a corrupção?

A desigualdade e a corrupção estão tão relacionadas entre si e, normalmente, tão unidas, que é difícil dizer quem provoca maior estrago. Ambas destroem o tecido social, desorganizam tudo, queimam inutilmente energias, geram a miséria e a fome. E, pior: podem se tornar estruturais, com consequências desastrosas para o país e, mais ainda, para as pessoas.

Na mensagem aos jovens brasileiros, na festa no Santuário Nacional de Aparecida, o Papa Francisco escreveu: “Não tenham medo de combater a corrupção e não se deixem seduzir por ela”. Como os jovens da Bahia podem seguir esse conselho do Papa?

A partir de pequenos gestos – isto é, começando com a eliminação das “pequenas” corrupções, que facilmente uma pessoa se permite, achando que não se trata de um problema. Depois, redescobrindo a importância do 7º mandamento da Lei de Deus: “Não furtarás!” (Ex 20,15), lemos no Antigo Testamento. “Não roubarás!” (Mt 19,18), lemos no Evangelho. Esse mandamento proíbe tomar ou reter injustamente os bens do próximo, lesá-lo de algum modo nos bens, e prescreve a justiça na gestão dos bens terrenos. Nesse ponto, o papel dos pais na formação humana e cristã de seus filhos é fundamental. Filhos responsáveis constroem uma sociedade madura.

 


A vida é um dom de Deus. A violência sobre as mulheres está
ligada ao machismo ainda arraigado no coração de muitos homens.
Uma saída para combater a violência? A fé e a educação.


 

A Bahia é hoje um dos estados mais violentos do país. Como o senhor tem refletido sobre a matança de jovens, a maioria negros/mulatos, a violência contra as mulheres. Isso é resultado de quê? O Sr. vê alguma saída?

Impressiona-me o pouco valor dado à vida aqui em nosso meio. Mata-se com uma naturalidade que me impressiona. Se a gente refletir, nascerá uma pergunta: Como foi que se chegou a essa situação? Afinal, a vida é um dom de Deus; ninguém consegue restituir a um outro a vida que lhe foi tirada. Estamos aqui no campo do 5º Mandamento: “Não matarás!” (Ex 20,13). Lembro-me do que me falou, certa vez, um professor de Direito: “Se todos observassem os Mandamentos, a paz seria geral; nossos trabalhos como advogados seriam praticamente desnecessários”…

Uma saída? A fé e a educação. Começo pela segunda: os meios de comunicação podem dar uma preciosa ajuda nesse campo. Afinal, não é suficiente o trabalho das igrejas e das escolas; nem se resolverá tais problemas com o simples aumento do efetivo policial. Quanto à fé: ela é fundamental na vida de uma pessoa. Afinal, um dos ensinamentos básicos de qualquer religião é o respeito à vida. Nós, cristãos, acreditamos no que a Palavra de Deus nos ensina – isto é, que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Jesus se identifica com cada pessoa, a ponto de dizer que o que fizermos pelos outros, é para ele que estaremos fazendo. Como, pois, atentar contra a vida de alguém que é imagem e semelhança de Deus? Alguém com quem Jesus se identifica?…

Quanto à observação a respeito do maior número de negros/mulatos serem as vítimas da violência, só posso entender dentro do quadro dos preconceitos que nossa sociedade alimenta. A violência sobre as mulheres está ligada, sem dúvida, ao machismo que ainda está arraigado no coração de muitos homens.

 

Posse Dom Murilo na Arquidiocese de Salvador. Foto Robson Mendes

 


A liberdade religiosa se baseia na dignidade
da pessoa. Ninguém pode ser coagido a agir
contra a consciência no tocante à religião.


 

O que pensa sobre as manifestações de intolerância religiosa principalmente contra as religiões de matriz africanas? O que fazer?

Para a Igreja Católica, os princípios nesse campo são claros: a liberdade religiosa se baseia na dignidade da pessoa. Ninguém pode ser coagido a agir contra a consciência no tocante à religião. O ordenamento jurídico da sociedade deve reconhecer o direito da pessoa à liberdade religiosa. É lastimável, pois, que em pleno século XXI, ainda tenhamos que acompanhar notícias que nos assustam pelas manifestações de intolerância religiosa aqui e ali – contra religiões de matriz africanas ou contra outras religiões, não cristãs ou cristãs…

A bancada evangélica da Câmara dos Deputados quer endurecer as regras antiaborto e voltar a considerar o aborto um crime, mesmo em casos de estupro, risco de vida para a mãe e até de fetos com anencefalia. Qual a sua opinião?

Poucos temas, quando discutidos, despertam tanto interesse e paixão como o da “vida”. Para a Igreja, falar da vida é discorrer sobre um valor sagrado e inviolável, que deve ser promovido e defendido a todo custo. Não é a sociedade que concede ao cidadão o direito de viver. Tal direito não depende também da classe social da pessoa, de sua raça, religião ou cultura; não depende nem da maior ou menor utilidade que amanhã ela poderá ter para a sociedade. O direito à vida se fundamenta na vontade de Deus e na natureza humana, como ele a criou.

A vida é, por sinal, o supremo dom natural que o Criador nos concedeu. Mesmo assim, ouvem-se frequentemente pessoas ou grupos fazerem distinções a esse respeito. Defendem o “direito de se recorrer ao aborto” sobre as mais diversas justificativas. Afirmam, por exemplo, que a mulher é dona de seu corpo; que um feto não tem direitos; que se for gerada, tal criança será uma faminta, uma analfabeta, uma desempregada a mais; que são muitos e perigosos  para a saúde da mulher os abortos clandestinos etc. A Igreja, de sua parte, proclama que toda a vida humana deve ser preservada, sustentada, valorizada e aprimorada desde o primeiro instante da concepção.

Quando uma vida começa a surgir, nem pai, nem mãe, nem sociedade podem decidir pela sua extinção. Assim, o aborto diretamente provocado é inaceitável, justamente por ser atentado à vida humana. Há um conjunto de direitos que a sociedade não tem que conceder, por que eles lhe são anteriores. Inclui-se, nesse grupo, a maior parte daqueles direitos que se dominam “os direitos fundamentais do homem”, que gerações recentes se gloriam de ter apresentado em forma de carta universal. O direito à vida é fundamental, condição de todos os demais direitos.

 

 


Quando uma vida começa a surgir, nem pai, nem mãe,
nem sociedade podem decidir pela sua extinção.
O aborto provocado é inaceitável, é atentado à vida humana.


 

O senhor é um padre dehoniano, da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus. O Padre Dehon disse, em sua época, que “não há amor sem dor”. Como isso se aplica à sua ação pastoral nesse momento?

Não adianta negar: problemas, desafios e contrariedades fazem parte de nosso dia a dia. Precisamos encarar isso com tranquilidade, buscando energias que nem imaginávamos ter. Passada a “tormenta”, e tendo superado as cruzes de nosso caminho, descobrimos que somos maiores e mais fortes do que imaginávamos.

A “nova” Igreja do Papa Francisco é a do Padre Marcelo Rossi ou a do teólogo Leonardo Boff?

O Papa Francisco não está nos apresentando uma outra Igreja, mas a Igreja de Jesus Cristo, com suas propostas, exigências, desafios e alegrias. Quanto mais alguém vive os valores que Jesus Cristo nos deixou, “mais Igreja” é.

Diante de tantas opções de ‘gêneros’ postos, o que ainda significa para a cristandade católica, o masculino e o feminino? Homem e mulher. Como o senhor vê essa sexualidade pan tão exposta?

Vou, com muita simplicidade, apresentar, já que é isso que me está sendo pedido, o pensamento da Igreja a esse respeito. Lembro, a esse propósito, as palavras do Papa Francisco, no dia 23 de abril de 2015, quando ele alertou o povo de Deus sobre a gravidade da chamada “ideologia do gênero”, que está crescendo em nosso país e no mundo. Para esta ideologia, e para as pessoas que a defendem e propagam, as pessoas não se dividiriam por sexo (sexo masculino e sexo feminino), mas por gêneros: heterossexuais, homossexuais, travestis, transexuais e o que mais os desejos de cada um o levassem a seguir. Os inventores dessa tal “ideologia de gênero”, criticada pelo Papa, consideram que dividir a humanidade em “sexo masculino” e “sexo feminino” é errado, e que as pessoas deveriam ser classificadas conforme seus desejos.

O Papa mostrou que o avanço dessa ideologia é um sério problema, não somente para os cristãos. “Pergunto-me, por exemplo, se a chamada teoria do gênero não é expressão de uma frustração e resignação, com a finalidade de cancelar a diferença sexual por não saber mais como lidar com ela. Neste caso, corremos o risco de retroceder”, diz o Papa Francisco. E lembrou que junto com a difusão de tal ideologia, existe uma tentativa de cancelar as diferenças naturais entre homens e mulheres, para reconhecer apenas as inclinações sexuais de cada um como definidoras da sua própria identidade sexual. Mas, para o Papa, “a eliminação da diferença, com efeito, é um problema, não uma solução. Para resolver seus problemas de relação, o homem e a mulher devem dialogar mais, escutando-se, conhecendo-se e amando-se mais”.

 

 


Querem cancelar as diferenças naturais entre homens e mulheres,
para reconhecer apenas as inclinações sexuais, como definidoras
da sua identidade sexual. Isto é um problema, não uma solução.


 

Volta e meia, culpa-se a mídia de tudo. De favorecer grupos, tomar partidos, incitar a violência, deseducar o povo, distorcer informações, cultuar ídolos. O senhor é a favor de alguma forma de controle da imprensa ou radicalmente contra?

É perigoso dividir as pessoas em dois grupos, isto é, “a favor” ou “contra” a censura, pois é preciso, antes de tudo, definir o que é “censura”. Penso que a Imprensa tem condições de prestar uma grande ajuda à sociedade, não só informando mas, também, divulgando desvios praticados por membros da sociedade ou levando-a a discutir temas importantes.

Há valores, contudo, que devem ser levados em consideração, quer pela Imprensa quer pela sociedade, por exemplo:  verdade, respeito à religião e aos princípios que norteiam as pessoas, atenção às crianças etc. Só para exemplificar: ninguém gosta de ver sua mãe ou sua religião ofendidas publicamente – isso é, não pode haver liberdade, por parte da Imprensa ou de outro setor da sociedade, para ofender os outros, para ridicularizar seus valores familiares, religiosos etc. É necessário, também, que haja a possibilidade de uma pessoa ofendida ou ferida em sua dignidade de se  defender, quando se considerar injustiçada. Mas aqui já estamos no campo da Justiça.

 

 


Do ponto de vista da fé, a esperança é um dom que Deus nos deu.
Creio na capacidade humana de se reinventar. Creio na força dos
brasileiros, que já superaram outros difíceis momentos.


 

O que podemos esperar das eleições 2018, para presidente, senadores, deputados, governadores… há esperança?

Um dos maiores pensadores católicos do Brasil no século XX foi Alceu Amoroso Lima. Muito aprendi com seus textos. Guardo, particularmente, uma frase sua: “Contra toda a esperança, a esperança”. O linguajar popular nos lembra que “A esperança é a última que morre”. Do ponto de vista da fé, a esperança é uma virtude teologal, pois é um dom que Deus nos dá para crermos em suas promessas. Alimento, pois, essa virtude e me guio por ela. Creio na capacidade humana de se reinventar. Creio na força dos brasileiros, que já superaram outros difíceis momentos ao longo de sua história. Tenho esperança de que o sofrimento atual dos brasileiros, acompanhado de renovadas notícias de corrupção e desemprego, nos ajudem a pensar melhor em quem depositar, nas próximas eleições, nossa confiança.

Que ‘Outra Bahia’ o senhor imagina?

Dom Murilo: Diante de um Estado como o nosso, com inúmeras belezas naturais, com ricas tradições, com uma gastronomia única e monumentos esplêndidos, com um acervo incomparável de arte sacra, com um povo que tem um jeito alegre de ser e de viver, e uma capacidade imensa de acolhida, sonho com o dia em que a Bahia seja capaz de despertar em outros estados ou países o desejo de ser como ela.

 

 

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