Almanaque

Saudade da Bahia

Noite de lua e estrelas na inauguração da praça Dorival Caymmi em Itapuã

Mais de dez mil pessoas e vários cantores do rádio presentes na homenagem ao mestre que melhor cantou a Bahia e sua gente.

Caymmi, ao lado de Stela Maris, canta para um público apaixonado por ele.

A inauguração da Praça Dorival Caymmi reuniu na antiga praça da Matriz, em Itapuã, 27 de junho de 1953, um sábado, há 64 anos, nada menos que 10 mil pessoas, incluídas aí caravanas vindas de diversos locais do país, principalmente do Rio e São Paulo. Um acontecimento nacional. O dia foi sugerido pelos pescadores de Itapuã. Previram que não choveria.

A cidade vazia. Todos os caminhos levam a Itapuã. O lugar onde Dorival Caymmi buscou inspiração para algumas das suas principais canções fora tomado pelo povo. “De tudo quanto é canto tanta gente veio”. O sistema de transporte coletivo de Salvador circula linhas especiais de 32 bairros da cidade até a nova praça. Caymmi canta “Saudade de Itapoan” em dueto com sua mulher Stela Maris, acompanhados por um coro de 10 mil vozes.

O farol piscava próximo e a lua cheia no alto do céu iluminava a noite radiante de Itapuã e a presença de Dorival Caymmi, estrela maior, era o que mais cintilava nos olhos enamorados da população.


 

Caymmi e Stela Maris chegam em carro aberto, empurrado pela multidão. Itapuã era só alegria.

Constelação de astros
da era do rádio

Caymmi, aos 39 anos, agradeceria em júbilo. Na plenitude da era do rádio, o extraordinário show da inauguração concentra verdadeira nata de cantores e grupos musicais de sucesso à época. Os casts de artistas da Rádio Tupi, Ademilde Fonseca, Dóris Monteiro, Odete Amaral, Leni Caldera, Trio Nagô, entre outros; e da Rádio Sociedade da Bahia (PRA-4), apresentam-se interpretando as belas canções de Caymmi. Nivaldo Rolemberg era um dos apresentadores.

O compositor e amigo Antonio Maria, o parceiro Carlos Guinle Filho nos samba-canções “Você não sabe amar” e “Tão só”, o cronista Rubem Braga, marcam presença. O jornalista Odorico Tavares noticiaria, em duas páginas na revista O Cruzeiro, a noite memorável. O Diário de Notícias, principal jornal da cidade à época, já havia dado uma destacada matéria convocando os leitores para a efeméride e dedicaria uma página sobre o evento.


 

Dorival Caymmi, a placa da praça, e o fotógrafo de “O Cruzeiro”, Indalécio Wanderley, registrando tudo para a revista de maior circulação no país.

Bandeiras, flores, a praça clareada de alegria

No dia da festa, os pescadores se mobilizam na ajuda aos funcionários da Prefeitura encarregados de decorar a praça com bandeirolas coloridas, o cruzeiro adornado em flores, a igreja iluminada. O equipamento contemplava a urbanização do local – pouco mais que uma vila de pescadores, reduto ideal para veraneio, com casas típicas e fachadas pintadas em variadas cores.

A praça, hoje ocupada por um desordenado comércio ambulante, estava repleta e, no mar em frente, a praia, como nos atuais finais de semana, também fora tomada por tanta gente ávida em homenagear seu cantor.

A iniciativa da homenagem foi do vereador Osório Vilas Boas, cujo projeto de Indicação, após pressão favorável da opinião pública, em que pese tratar-se de pessoa viva, obteve aprovação por unanimidade. Afinal, ninguém havia oferecido  contribuição tão significativa sobre a Bahia e para todo o Brasil, quanto ele com suas canções sobre o mar, a praia, a lagoa do Abaeté, os coqueirais e a morena de Itapuã; as ruas antigas e os sobrados da velha São Salvador, as comidas, as igrejas, os orixás, as tradições e os costumes baianos, exaltando belezas que – hoje bem o sabemos e cantarolamos nas suas composições – só a Bahia tem.


 

Uma pose para a posteridade: o mestre e sua praça.
Deu no jornal: caravanas do sul do país marcam presença na inauguração da praça.



O berço das canções do mestre

Ao rememorarmos, antecipadamente, os 10 anos sem a presença de Dorival Caymmi (30/04/1914-16/08/2008) e seus 104 anos se vivo estivesse – além da importância fundamental para a Música Popular Brasileira de todas as suas composições, notadamente as “canções praieiras”, aquelas em que cantou Itapuã e o Abaeté – vale ressaltar, desde já, o que significou para este lugar, a cidade, o estado e o país, a inauguração da principal praça do bairro e que o homenageia com seu nome.

A placa foi descerrada pelo governador Regis Pacheco e prefeito Antonio Gordilho. O ministro da Educação e Cultura, empossado na véspera e acumulando interinamente o Ministério da Saúde, também estava lá: era Antonio Balbino. Na primeira reforma ministerial do segundo governo Vargas, substituíra Ernesto Simões Filho que dirigira, até então, a pasta da Educação e Saúde. Getúlio Vargas cometeria suicídio pouco mais de um ano depois. Balbino seria eleito governador da Bahia, daí a dois anos.

 

Saudade de Itapoan

Gravação original, com Dorival Caymmi acompanhado por violões em disco RCA Victor 800576 B (matriz S-078823). Gravado em 05.11.1947 e lançado em abril de 1948.

Coqueiro de Itapoã, coqueiro
Areia de Itapoã, areia
Morena de Itapoã, morena
Saudade de Itapoã me deixa

 

Oh vento que faz cantiga nas folhas
No alto dos coqueirais
Oh vento que ondula as águas
Eu nunca tive saudade igual
Me traga boas notícias daquela terra toda manhã
E joga uma flor no colo de uma morena de Itapoã

 

Coqueiro de Itapoã, coqueiro
Areia de Itapoã, areia
Morena de Itapoã, morena
Saudade de Itapoã me deixa
Me deixa, me deixa…

 

Saudade da Bahia

Em 1956 Caymmi foi considerado o melhor compositor e cantor do Brasil, escolhido por jornalistas, críticos e artistas do cenário nacional. Em 1957 lançou Saudade da Bahia. O vídeo abaixo tem edição de Noemia Hime.

Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia
Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia
“Bem, não vá deixar a sua mãe aflita
A gente faz o que o coração dita
Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão”

 

Ai, se eu escutasse hoje não sofria
Ai, esta saudade dentro do meu peito
Ai, se ter saudade é ter algum defeito
Eu pelo menos, mereço o direito
De ter alguém com quem eu possa me confessar

 

Ponha-se no meu lugar
E veja como sofre um homem infeliz
Que teve que desabafar
Dizendo a todo mundo o que ninguém diz
Vejam que situação
E vejam como sofre um pobre coração
Pobre de quem acredita
Na glória e no dinheiro para ser feliz

 


 

 

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