Ping-Pong

Juca Chaves

O brasileiro é corrupto. Estamos aprendendo a não ser corruptos

O Brasil é o mesmo. Mudaram os personagens. O brasileiro continua se achando o melhor do mundo em tudo. Mas o próprio pecador está começando a se arrepender.

Feliz em Itapuã, o menestrel curte o mar, o povo da Bahia, sua amada Yara e filhas e João, o seu cão de estimação. Fotos da página Vander Prata.

 

Jorge Amado disse um dia que Juca Chaves é a voz mais livre do Brasil. “O último menestrel”, livro que escreve em casa olhando o mar de Itapuã, para onde se mudou há 38 anos, e que lança ainda este ano, vai contar um pouco da história de quem já se definiu como “um vendedor de sonhos, do sonho da liberdade, exclusividade daqueles que são e pensam livre”.  Compositor, músico e humorista, Jurandyr Czaczkes Chaves (22/10/1930) nasceu no Rio de Janeiro. Toca vários instrumentos, do violão ao piano. 

Juca Chaves é um marco na MPB, autor e intérprete de belas criações de um de nossos mais autênticos gêneros musicais, a modinha. Criador das sátiras políticas modernas. Na ditadura, antes que fosse preso, partiu para Portugal e depois Itália. Nos cabarés romanos e teatros milaneses fez a festa.  O cineasta Vitório de Sica ao assisti-lo encantou-se: “eis aí o verdadeiro humor inteligente! Bravo!”

Dentre suas canções mais conhecidas estão “A Cúmplice”, “Menina”, “Que Saudade”, “Por Quem Sonha Ana Maria”, “Presidente Bossa Nova, “Take me Back to Piauí”. Satirizou a ditadura, a nova república e seus novos hábitos e a mesma velha corrupção.

Aqui, Juca Chaves fala de seu prazer e alegria em viver na Bahia, e da influência em sua vida e obra de seu ídolo, Dorival Caymmi. Diz porque adora o povo e critica a classe média aculturada. Vê com apreensão as próximas eleições, num país corroído pela corrupção. Afirma que Lula está sendo punido pelos seus erros não por suas virtudes. E, por fim, fala do carnaval, uma festa sem parâmetros, cujo tom é o da alegria, “uma coisa maravilhosa, uma festa mágica”. 

Entrevista concedida a Césio Oliveira e Vander Prata.


 

O que a Bahia significa em sua vida, na sua obra?

Uma mudança pro melhor. O povo é muito bom, tem uma coisa dentro dele, seja pobre, médio, rico, que é diferente. O baiano não é um brasileiro, é um baiano!

Porra, já vai fazer 38 anos. Eu cheguei para um show. Estávamos almoçando no antigo hotel Quatro Rodas, eu e Yarinha, já estávamos cansados de São Paulo, de tantas viagens. E eu falei: Yara, que lugar bom pra gente morar, hein? E claro que eu fui procurar Itapuã que era o bairro do meu ídolo, Dorival Caymmi. Procurei terreno e achei este aqui na areia. Isso me lembra Caymmi cantando… eu não tenho onde morar é por isso que moro na areia…  Você vê a genialidade de Caymmi, ele sabia como é que se vive. Moro na areia. Adoro a filosofia caymesca. Era o meu compositor de primeira grandeza, ele, Luiz Gonzaga, Lamartine Babo.

Agora, só pra fazer inveja a muita gente, quando eu cheguei, sabe quem me esperava no aeroporto? Uma turminha: Jorge Amado, Mário Cravo, Carybé, Calazans e outros intelectuais da época. Eu fiquei emocionado, chorei muito no aeroporto mesmo, não sabia… Eu falei com Jorge umas duas vezes, aí espalhou que eu vinha com a Yara e disse: vamos puxar o menino pra cá. Esse grupo de famosos  tinha uns 10 ou 12 de alta intelectualidade. Eu fiquei aprendendo aqui na Bahia com eles.

Você é um carioca que viveu a adolescência em São Paulo

Eu comecei como jornalista da Última Hora de Samuel Wainer e os Diários, tinha 16 pra 18 anos. Morava em São Paulo, desculpe foi um engano. (risos) Morar em São Paulo? Primeiro que o governo deveria pagar pra alguém morar em São Paulo. Porque é uma cidade onde todos se odeiam e marcam um almoço pra falar de negócios. Isso não é um negócio muito bom! 

E o carioca, como é que entra nessa história?

O carioca é um baiano que pensa que é paulista (risos). Eu acho que ele não é nem uma coisa, nem outra. Eu sou carioca. Carioca se orgulha muito de ser carioca, mas já teve seu tempo também. Agora, o baiano, eu não sei… Eu acho que hoje a Bahia é o lugar da moda. Eu acho que ela está em primeiro lugar… O litoral é muito bonito, o mar é maravilhoso. O Rio de Janeiro cresceu demais, e também desmontou a parte de cima, que é o morro, a parte de baixo, agride. O Rio se despedaçou, literalmente falando.

Na adolescência morava em São Paulo e passava férias no Rio. Ia pra casa do editor Albino Filho, amigo de maçonaria do meu pai, comunista e maçon, só no Brasil né! Passava as férias aprendendo comunismo. Fiquei amigo de todos, eram cultos… Oscar Niemeyer, todos. Minha mãe dizia cuidado você fica falando que gosta do comunismo… era perigoso, mas eu gostava. No Partido Comunista do Rio eles eram simpáticos, comunista brasileiro é simpático (risos). Depois deixei de ser. Não gosto de fanatismo. Não sou fanático de nada nem pelo São Paulo Futebol Clube, e olha que sou sãopaulino até morrer! (risos).  O fanatismo não te leva a nada. Não gosto de fanatismo… se isso acontecer me mato! Ora, me mato nada.

 

 


A Bahia mantém o que pra mim é o mais importante:
é o jeito baiano de viver. Não tem muita gente intelectualizada,
mas tem muita gente que gosta de arte, que faz arte


 

Como é que você vê atualmente a Bahia?

A Bahia mantém o que pra mim é o mais importante: é o jeito baiano de viver. São simpáticos. São baianos. A Bahia eu vejo deliciosa. Mantém a mesma riqueza das pessoas. Não tem muita gente intelectualizada, mas tem muita gente que gosta de arte, que faz arte. Isso é herança do tempo da escravidão, do sofrimento do escravo, que foi uma grande maldade, mas que se reflete no baiano de hoje. Porque já sofreu o necessário que um povo pode sofrer. Toda a história baiana, a colonização portuguesa.

Quando eu ia ao hospital, meus cálculos renais, meus problemas todos, quando meu coração estourou aqui, a maneira que eu fui tratado. Eu duvido que alguém, que não seja baiano, não se comova com isso. Um dia desses estava voltando da ilha e peguei a balsa. E tava com o violão e mais duas malas grandes. Eu nem peguei no violão ou nas duas malas. Tinha sempre gente que pegava para mim. Teve um até que nem sabia quem eu era. Olhou meus cabelinhos brancos e achou que eu era velho (risos)…

Jorge Amado dizia que a velhice é uma merda…

É uma merda… Mas é pela parte física, às vezes. Também não sou mais o garotão que luta “Jiu Jitsu”, mas continuo… Continuo lutando, faço meu treino aqui. Gosto de mexer em casa, fiquei agora um ano sem fazer porra nenhuma. Vida de político. Resolvi ser um político sem ser eleito. Eu ficava só em casa, arrumando coisas. Não estou trabalhando. Só terminando um livro de memórias.

 Você viveu um tempo fora do Brasil no tempo da ditadura

Eu cheguei em Portugal como exilado, não fui mandado embora, mas fugi. Eu sou mais inteligente que os que ficaram dizendo “vamos enfrentar”. Na hora que meu pai, que era maçom, soube do que estava acontecendo, a maçonaria, na hora, me botou num avião e me tirou do Brasil, na hora certa.

Se ficasse aqui você também seria preso?

Eu estava na lista do CENIMAR, da Marinha, por causa daquela música (cantando): Brasil já vai à guerra / comprou porta-aviões / um viva pra Inglaterra / de 82 milhões, ah, mas que ladrões.. E eles não gostaram muito na época…(risos) Essa e outras músicas que eu fazia, gozando tudo. Já no tempo do Juscelino, o Juscelino gostava. Tanto que eu me dou muito hoje com a filha dele… Quando eu vou a Brasília, eu vejo Brasília como uma capital que me pertence.

Os políticos sabem disso, que ela te pertence?

O que é que eu faço com esses políticos todos? Se me derem Brasília, a primeira coisa, eu faço uma fogueira bem grande e fazemos uma festa de São João…

Você fez a música Presidente Bossa Nova em 1957. A palavra bossa nova, vem de João Gilberto ou de você?

Bossa nova vem antes de nós dois.

O termo já era usado…

Ah, já era usado no final dos anos 50 e até em música. Eu ouvi falar em bossa nova por causa do Noel Rosa, (cantando) Isso que é bossa que é bossa nova…

 

 


Eu acho que devia ter mais informação nas televisões, nas rádios,
a corrupção não é louvável, como muita gente fala. Você vê que
o Lula está pagando agora pelos erros, não pelas virtudes.


 

E você já fez alguma música para o Temer ou para o Lula ou para a Dilma?

Lula, não. Mas eu conheci o Temer agora, nessa última temporada que passei em São Paulo. Um dia eu falei com o Temer, querendo ser gentil: nós dois – eu disse – temos uma coisa em comum: somos baixinhos, feios e temos duas mulheres bonitas. Ele olhou para mim assim e disse: “não concordo”. Eu falei: por que? Ele falou: “não sou baixinho e feio”. Eu falei: desde quando? (risos) Ele não gostou. Ele ficou olhando pra mim assim… virou as costas. Ele dá um giro assim, inteiro, gira o corpo todo. Ele tem problema no pescoço, né? Foi muito gozado.

Como é que você faria uma música para a situação do Brasil hoje?

Confusa. Tá um momento de expectativa, como se fosse acontecer alguma coisa… vai acontecer. Eu sinto, com todo mundo que eu falo, bato papo… “Não, tá melhorando”. Sim, mas tá melhorando em que sentido? Liberdade nós já temos. Temos um crescimento da cultura, queira ou não queira.

E o que falta?

O Brasil é muito grande, com muita gente. Tem que haver um controle da natalidade urgente no Brasil. Elsimar Coutinho tem razão. Eu sou fã dele. O Brasil precisa controlar o nascimento, tem muita gente nascendo, aí não dá oportunidade para aqueles que estão vivendo. Para de fazer filho, pô! Faça um, dois, não precisa fazer oito.

O país está mudando?

Agora você percebe que há uma tentativa de moralização. Esse negócio do Lula, a quantidade de pessoas que votaram no Lula e ele cair… a população está contra ele agora.

Tem muita gente a favor

Tem a turminha dele, do PT. Agora felizmente ficaram antipáticos, com a prepotência… Tem muito político antipático, e tem outros simpáticos. Os simpáticos estão mudando a cara do político. Se não mudar, eles morrem, eles caem. Você pode ver que hoje há uma tendência do político mostrar trabalho, honestidade, uma pequena turma, mas já está começando a melhorar.

Por que o Brasil desembocou nessa corrupção enraizada no país inteiro, é por causa do “jeitinho brasileiro”?

Isso é questão de formação de caráter. A própria política nos ensina isso. Antigamente, quando eu era menino, o cara que roubava, era feio. Hoje é assim: aquele cara roubou 100 milhões, legal, vamos apoiar… Então, a própria cultura brasileira partiu para a corrupção da cabeça, nós somos corruptos. Estamos aprendendo a não ser corruptos.

O que fazer?

Eu acho que devia ter mais informação nas televisões, nas rádios, a corrupção não é louvável, como muita gente fala. Você vê que o Lula está pagando agora pelos erros, não pelas virtudes. Teve alguma coisa de virtude. A minha empregada, por exemplo, gosta: “ah, se não fosse o Lula, não teríamos um monte de coisas…” Tudo bem, mas para o Brasil, não. Nós precisamos de uma cabeça mais aberta.

 

 


Antigamente, quando eu era menino, o cara que roubava, era feio.
Hoje não é assim. A cultura brasileira partiu para a corrupção de cabeça,
nós somos corruptos. Estamos aprendendo a não ser corruptos


 

De “Caixinha Obrigado” até hoje, esse modus operandi da propina, de levar vantagem, mudou alguma coisa?

Não, acho que continua. O Brasil é o mesmo. Mudaram os personagens. O brasileiro continua pensando igual. Maior do mundo, somos o melhor time do mundo, o melhor futebol do mundo, a melhor mulher do mundo. Tudo é o melhor do mundo. Mas, no fundo, a gente corre atrás de ser, por exemplo, o melhor do bairro. O que já está difícil. Brasileiro tem uma coisa boa, mesmo das classes mais baixas, ele não perdeu o humor, de modo geral. Ah, mas a gente sofre muito, tem muitos problemas financeiros, sempre teve.

Você é coxinha, mortadela ou caviar?

Eu? Eu continuo comendo caviar assim, um a um (risos). Eu até fiz a música do comer caviar: “você que nunca viu e nem ouviu, ô meu / e nem comeu, o tal do caviar / caviar não é coisa só para rico, eu explico / basta ser pobre e ter bom paladar, e aproveitar / caviar são ovas de esturjão, então; vá para o mar Cáspio que tem / se não souber onde fica, eu explico, dou uma dica / pergunte ao Lula que ele sabe bem, e muito bem”.

Como é que é possível fazer humor com a maioria carrancuda do jeito que está aí, com reações exacerbadas de lado a lado?

Você vê que estava piorando cada vez mais, mas agora deu uma brecada. Com medo, o próprio pecador está começando a se arrepender. O brasileiro, pelo menos, tem uma coisa muito boa: ele é gentil e alegre quando quer. Ele tem essa facilidade de ser gentil. Principalmente o mais sofredor, que é o pobre. Tem a parte ruim, mas eu vejo que vem mais da classe média. Uma classe média que subiu no Brasil sem muita cultura.

É a classe média o fiel da balança?

O país que tem uma classe média poderosa, sempre é melhor. Na Suíça, por exemplo, se vive bem. O povo da Suíça não quer ser rico. Tem os milionários e tem os normais. Também não tem pobre. Eles conseguiram fazer um país porretinha. O Brasil tem 220, 230 milhões e está preparado para ter 50, 60 milhões, segundo a Unesco. O Brasil tem muita gente. Ah, mais é grande demais! Pior ainda! O Brasil é um país muito grande, esse que é o defeito. “Somos o maior país da América Latina”, falamos com orgulho; isso é uma merda! Você vê que o Uruguai é menorzinho e se vive melhor. O melhor da América do Sul é o Chile, tem cultura maior.

 

 


O brasileiro tem uma coisa muito boa: ele é gentil e alegre. Principalmente
o mais sofredor, que é o pobre. Tem a parte ruim, que vem mais da classe média.
Uma classe média que subiu no Brasil sem muita cultura


 

Você é contra ou a favor de fazer a ponte Salvador-Itaparica?

Eu pergunto: será útil? Será que muita gente vai de cá pra lá ou de lá pra cá? Uma ponte tem que ser feita quando é necessária. Não sei se o pessoal que mora na ilha vai gostar disso. Tem o lado do pró e o lado do contra. Muita gente quer ir de carro, mas eu acho bonito ir de lancha. Acho que só precisamos de lanchas melhores.

Estamos cuidando bem do patrimônio cultural e artístico de Salvador?

Melhorou muito. Se perde pela própria filosofia. Mas se ganha de um modo geral, de uma maneira que, quando eu cheguei aqui tinha “menas” (risos) gente. Eu ando muito na praia, eu converso muito com as pessoas, então eu sinto que o bom humor continua com os baianos. Aquela coisa gostosa… A classe média, mesmo a classe média mais baixa. A classe muito pobre, ela tem ainda a vantagem da alegria brasileira; esse negócio do Carnaval. Aquela alegria sofisticada, que é mais criativa. A gente tem até uma festa que é Carnaval, e no fundo o cara é obrigado a ser alegre, não é mesmo? “Você não vai se divertir no Carnaval? Tá doente!”. Então é uma festa que obriga você a ficar alegre. Olha que coisa mais maravilhosa. Ninguém fica doente no Carnaval, já percebeu? (Risos) É uma festa mágica. Não é só botar a roupa e sair dançando.

A Catherine Deneuve falou que as mulheres gostam de ser paqueradas. E a Danuza Leão foi a favor, dizendo que a mulher paquerada três vezes por semana é mais feliz.

A mulher gosta de ser paquerada… Claro que ela não gosta de ser agredida na paqueração. Muitos homens não têm nem a categoria do verdadeiro homem. Tem o macho. Aí também não resolve o problema da mulher. Então tem que tirar o macho de circulação e colocar o homem. Por que a mulher fala: ah, eu gostaria de ter uma poesia, um soneto. Eu mesmo agradei muita gente fazendo poesia e soneto. Pela minha beleza, hoje eu tenho certeza que não foi.

Você paquerou muita mulher com poesia?

Muito. A vida toda. (Cantando) Por ser baixinho, feio e narigudo / pra que é que eu sirvo? / Só pra dar recado? /mas na verdade eu sirvo pra tudo / até chifrudo eu sou, sem ser casado. Eu não era casado, me falavam que eu era corno; agora é melhor você ser corno, porque arruma outra melhor. Desculpa, mas eu gosto de sempre viver a vida com humor. Isso foi a melhor coisa que eu fiz.

 

Foi em julho de 1974 que Juca caminhava pelo calçadão da Avenida Atlântica, no Rio, e viu uma jovem desfilar seu balanço a caminho do mar. Pura paixão, curtida há 38 anos à beira do mar de Itapuã.

 


A mulher gosta de ser paquerada… Claro que ela não gosta de ser
agredida na paqueração. Muitos homens não têm nem a categoria do
verdadeiro homem. Tem que tirar o macho de circulação e colocar o homem


 

Juca, uma perguntinha: por que você foi candidato a senador, em 2006?

Fui. Eu fiz de brincadeira. Eu estava precisando de uma grana…. (risos) Só que meu partido era fraco. Pegaram os meus votos e deram para o Tiririca. Os meus e os do Agnaldo Timóteo. Porque eu seria como senador, péssimo. Eu ia começar a dedurar meus colegas. Isso não é do meu feitio, entendeu? Eu sou contra a corrupção, eu não gosto!

Não gosto de roubo, sou anti-roubo, odeio ladrão, entendeu? Aqui no Brasil é o máximo ser ladrão. É só passar um filme de que o personagem principal é ladrão, lota o cinema (risos). Não precisa nem fazer outra coisa. É como o cara falar: “rouba mas faz”; rouba mas faz, não faz! Acho que você tem que fazer sem roubar.

Agora, aí tem que ter educação. Meu pai era um judeu austríaco, ele me educou para ser honesto. Sem brigar, sem fazer nada. Eu contava, às vezes, uma aventura: pai, saí com amigos, quiseram entrar sem pagar no cinema, tal, ou roubei a bala… Ele dizia: “não é legal, meu filho, compre a sua…”

Como você vê as próximas eleições? 

Medo. Medo daqueles que pensam em ganhar pra roubar. Ouço muito essa frase…ah eu vou ganhar a eleição, vou ficar rico, aquela coisa toda que eles falam em tempo de eleição.

É provável que os candidatos sejam Lula, Alckmin, Ciro Gomes, Bolsonaro, Marina Silva, Manuela D´Ávila…

Tudo que já não deu certo. Todo mundo quer ser presidente porque é bom. Como profissão. Eu já não.  Eu sou mais inteligente que eles, eu queria ser vice. O vice-presidente é muito melhor do que o presidente. É como a amante. Não precisa ser o marido, o bom é ser o amante da outra.  Você sai ganhando mais que o marido. Marido só tem problemas. Vice presidente é ótimo. Ser presidente, não vejo vantagem, não pode fazer nada, tudo mundo sabe quem é ele. 

Mas ninguém sabe quem é o vice-presidente. Quem é o vice hoje ? Ninguém tá sabendo. Ele pode roubar à vontade. A notícia vem: o vice-presidente foi envolvido… mas não sabe o nome dele. Percebeu? É ótimo ser vice, vice em tudo. O segundo músico da orquestra, por exemplo, se ele erra ninguém põe a culpa nele. Culpa o regente.  Ser vice eu acho maravilhoso. Tem presidente e tem vice. Prefiro vice. Por isso que o dedo não é sozinho, tem o fura-bolo, mata-piolho…

Pra encerrar um trecho da música que você compôs pro seu amigo João, o cão

Tenho um cachorro chamado João / João não é um cachorro, João é um cão, um cão, um cão / Tem uma amante chamada Fubá / mora na rua do lado de lá… Foi convidado pra ser deputado / porém recorreu às redes sociais / Dizendo não quero não concordo sou honesto demais.


1957 Por Quem Sonha Ana Maria?  

Na alameda da Poesia
Chora rimas o luar
Madrugada e Ana Maria
Sonha sonhos cor do mar

Por quem sonha Ana Maria,
Nesta noite de luar?
Já se escuta a nostalgia
De uma lira a soluçar
Dorme e sonha Ana Maria
No seu leito de luar

Por quem sonha Ana Maria,
Quem lhe está triste a cantar?
No salão da noite fria
Vêem-se estrelas a dançar,
Dorme e sonha Ana Maria Sonha
sonhos cor do mar,

Por quem sonha Ana Maria,
Quem lhe fez assim sonhar?
E raia o sol e rompe o dia
Desmaia ao longe o luar,
Não abriu de Ana Maria

Inda a flor de seu olhar.
Por quem sonha Ana Maria,
Eu não sei nem o luar…

1957  Presidente Bossa Nova  

Bossa nova mesmo é ser presidente
Desta terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser tão simplesmente
Simpático, risonho, original.

Depois desfrutar da maravilha
De ser o presidente do Brasil,
Voar da Velhacap pra Brasília,
Ver a alvorada e voar de volta ao Rio.

Voar, voar, voar, voar,
Voar, voar pra bem distante, a
Té Versalhes onde duas mineirinhas valsinhas
Dançam como debutante, interessante!

Mandar parente a jato pro dentista,
Almoçar com tenista campeão,
Também poder ser um bom artista exclusivista
Tomando com Dilermando umas aulinhas de violão.

Isto é viver como se aprova,
É ser um presidente bossa nova.
Bossa nova, muito nova


1960 Caixinha, obrigado  

A situação do Brasil vai muito mal
qualquer ladrão é patente nacional
um policial, quase sempre, é uma ilusão
e a condução é artigo racionado.
Porém, ladrão… isso tem pra todo o lado!
Caixinha, obrigado!

Que dramalhão, a reunião de deputados:
é palavrão que só sai pra todo lado.
Se um deputado abre a boca, é um atentado
E a mãe de alguém é quem sofre toda a vez.
No fim do mês… Cento e vinte de ordenado.
Caixinha, obrigado!

Política confusa; ninguém chega à conclusão;
um lado diz que sim, o outro diz que não.
Feijão aumenta o preço; COFAP tem razão?
Um lado diz que sim, o outro diz que não.

Se continuar assim, haverá revolução?
Governo diz que sim, o povo diz que não.
O parlamentarismo é útil pra nação?
Governo diz que sim, o povo diz que não.

Sairá vitorioso Francisco Julião?
O povo diz que sim, Lacerda diz que não.
Aqui não há problemas, pra que tanta confusão?
O povo passa fome mas Brasil é campeão.

Caixinha obrigado

1960  Brasil já vai à guerra

Brasil já vai a guerra, comprou um porta-aviões
Um viva pra Inglaterra de oitenta e dois bilhões
Mas que ladrões
Comenta o zé povinho
Governo varonil
Coitado coitadinho
Do banco do brasil
Há há, quase faliu
Enquanto uns idiotas
Aplaudem a medida
E o povo sem comida
Escuta as tais lorotas
Dos patriotas
A classe proletária
Na certa comeria
Com a verba gasta diaria
Em tal quinquilharia
Sem serventia
Porém há uma peninha
De quem é o porta avião
É meu diz a marinha
É meu diz a aviação
Ahhhh! Revolução!
Brasil, terra adorada
Comprou um porta aviões
Oitenta e dois bilhões
Brasil, oh pátria amada
Que palhaçada


 

 

Deixe uma resposta

Veja Também